Fui vítima de um golpe fracassado. Houve uma série de tentativas, mas minha astúcia não me deixou cair na fraude. Um grupinho que se achava muito esperto, tentava furtar algum material da minha sala, para aprontar alguma pela escola.
A primeira tentativa foi a mais honesta. Pediram. E eu neguei veementemente o empréstimo do material, já calculando de que seria responsabilizada por uma cambada zanzando com coisas que fazem sujeira pela escola em horário livre. Só não foi mais honesto, porque junto com o pedido, vieram uma série de desculpas esfarrapadas do destino daquele material.
A segunda tentativa foi até ousada. Enquanto um tampinha tentava me distrair com uma conversa mole, uma destemida menina adentrou à minha sala em silêncio, concentrada e direto para o meu armário. Meus olhos viam tudo, e meu coração estava até compadecido com tamanho plano quase perfeito. É claro, impedi o furto.
Tempo depois vem um malandro. Maior papo de que tinha esquecido um pertence seu, justamente no armário-alvo onde queriam chegar. Pacientemente pesquisei as características do tal objeto esquecido, me coloquei a procura-lo junto com garoto, até que ele desistiu de tentar me levar no papo e foi embora.
Na quarta tentativa, já estavam apelando para uma espécie de arrastão. Afinal, nada como colocar em prática as idéias que nossos queridos bandidos deixam todos os dias nos noticiários. Entraram em grupo grande, se espalharam pela sala numa ensaiada conversa espontânea, cheia de trejeitos e risadinhas. Um cara de pau tentava me passar uma conversa mole de aluno interessado, enquanto um outro que contava com a minha atenção dispersa em vários focos tentava se aproximar do tal armário valioso. Foi até bem articulada a organização do grupo, mas botei todo mundo pra correr novamente.
Convencida de que tinham desistido, veio a última tentativa que até me deixou na dúvida se entre tanto descaramento algo realmente poderia estar dando muito errado. Ouvi um estrondo na minha porta, alguma coisa havia batido ali com força. Alguém gritou o meu nome. Prontamente fui averiguar a causa de tamanho barulho. Eis que em minha porta havia aquela menina destemida, atirada no chão com pose de dor e as mãos no rosto ofegante. Quem gritara meu nome era o cara de pau que já havia tentado me levar na conversa. Dessa vez, ele pedia socorro em favor da destemida, alegando que ela havia batido na porta e caído. Até parecia real! Estavam realmente encenando! Genial! Conseguiram enxugar o plano com apenas dois participantes que atuariam apelando dramaticamente. Fiquei orgulhosa tamanho esforço desmedido. Quando estendi a mão para ajudar a suposta acidentada, o cara de pau rapidamente chegou a porta do meu armário. Uau... Quanta desenvoltura dessa molecada. Oxalá que se esforçassem tanto para serem bons alunos!
Tive que estragar tudo novamente e dizer a eles que desistissem. Infelizmente tive que dizer que suas tentativas estavam fracassadas e cada vez mais óbvias no seu nobre objetivo de me dar o golpe. Botei todo mundo pra correr, com a promessa de que se arrependeriam se tentassem voltar para atazanar meu horário sagrado de pausa. Fiz uma cara tão feia que meus queridos malandros se convenceram de que era melhor mesmo desistir dos planos infalíveis.
Meu momento de sossego ficou até sem graça depois dessa...
Alunos de escola particular...triste. Esse é o futuro da nação.
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