sábado, 15 de novembro de 2014

De volta no tempo

De repente olho para a mesa em que estamos e me sinto em 1990. Estava ali sentada conversando e rindo com pessoas que me viram ainda criança e hoje me vêem com minha filha já grande. Não é intrigante ver a passagem do tempo assim concretamente na sua frente?

O tempo passou para todos, mas a alegria de estar junto era exatamente a mesma como a trinta e poucos anos atrás. Cada um mora em um canto desse mundo e todos tem consciência de que vale qualquer esforço para podermos sentarmos à mesma mesa.

Quem era criança, já não é mais... Uns casados, outros formados, e todos crescidos. Os que já eram gente grande, continuam sendo e hoje os cabelos mais grisalhos mostram o quanto caminharam.

Em uma mesma mesa, uma porção de vida, uma infinidade de histórias e um monte de batalhas travadas por todos. Cada um com a sua caminhada e todos com o um fato em comum: um dia de suas vidas em que nossos caminhos se cruzaram.

Olhava para aquela cena e não conseguia deixar de pensar na grandeza da vida e do tempo. Pequenos agrupamentos de gente são grandiosos guardiões de muita história e o mundo é a soma de uma infinidade de pequenos mundinhos que contém o infinito.

Como foi bom, por um momento, ver o mundo desse jeito. Menor, mais quente, menos assustador e cheio, muito cheio de amor.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Cara de menina



“Você tem cara de menina, mas já é uma senhora.” Foi o que tive que ouvir do meu ginecologista quando ele me questionava se não ficaria grávida do meu segundo filho. Com cara de “Fazer o que...” tentei explicar que apesar de ter uma imensa vontade isso, por hora, seria bastante difícil pelo simples fato de estar sozinha.

Não. Não consegui encurtar a conversa e voltar para os meus exames de rotina que levei para ele dar uma checada. “Mas nem um namorado?!” – Ele insistiu na conversa e com cara de “Pois é doutor...”, tentei novamente explicar que depois de algumas experiências bastante complicadas, angustiantes e sem sucesso concluí que é melhor estar sozinha.

“Não é verdade doutor? O que o senhor acha? Melhor sozinha ou melhor acompanhada sofrendo para lidar com mentes complicadas?!” Foi a minha vez de falar, já que não consegui sair da conversa. A essa altura, eu já estava me segurando para não soltar o verbo de uma vez e transformar minha consulta médica em terapia.

“É...” Foi o que o doutor me respondeu de cabeça baixa. “Está tudo mesmo muito complicado hoje em dia... Nem eu que sou homem estou entendendo a cabeça masculina... Outro dia mesmo um amigo meu e blá, blá, blá...” O doutor me dava razão contando exemplos que ele mesmo acompanhou.

Ambos concordamos e ambos não tínhamos ideia do que fazer para melhorar o cenário para o meu lado, então o jeito foi mesmo voltar para os meus exames.

Saí de lá pensando na minha faceta de menina que esconde minha idade, minha estrada, meus traumas e minhas lutas com a vida. Sim, gostei do “cara de menina” e até concordei com o “senhora” que não me bateu como algo pejorativo, mas como algo que revela uma caminhada que a tempos já me tirou da meninice. Assusta? Devo confessar que assusta sim ver a vida passando na consciência de que não existe outra chance para o que quer que seja quando se trata do tempo.

É comum ter que lidar com a expectativa do outro. Sim! Quanto mais o tempo passa, mais você tem que entrar em conversas como essa do doutor. Contudo, não é “privilégio” meu, se você está só existe uma expectativa de que você esteja com alguém, se você está com alguém existe uma expectativa que você se case, se você se casa existe uma expectativa que você tenha filhos e assim a vida vai seguindo.

É no mínimo interessante a experiência de estar solteira na vida adulta. Talvez o outro não entenda que apesar da solidão ser cruel em muitos momentos, com o tempo a busca por estar bem e em paz começa a ser maior do que a busca por estar com alguém.