sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bonecas e passarinhos




Outro dia fiquei intrigada com a minha noite de sono. Acordei no meio da madrugada com a cabeça teimando em não me ajudar a dormir. Me senti irritada de ver que o relógio a todo tempo me falava que meu tempo sagrado de soninho estava me escapando entre os dedos.

Quando minha cabeça foi disciplinando as angustias, minha prece já estava me invadindo de paz, me vem uma inusitada lembrança: Bonecas de pano. Abri os olhos e me coloquei a perguntar porque um ser humano pensa em bonecas de pano as três da madrugada?! Me senti irritada de novo e não entendi absolutamente nada do porque daquela loucura.

Sempre amei bonecas, em especial as de pano. Houve uma época de minha vida que gastava horas costurando retalhos para construir bonecas. Tinha orgulho delas. Dei algumas de presente e outras ficavam sentadas pela casa, me fazendo sorrir a cada vez que passava por elas.

O interessante é que eu simplesmente deletei da minha memória esse fato tão mimoso de me dedicar a construir essas criaturinhas lindas, e o mais interessante foi resgatar isso da memória no meio de uma luta contra a insônia.

Em dado momento comecei a ouvir passarinhos cantando lá fora. Me deu até arrepio de pensar que me perdi nas lembranças e já estava amanhecendo. Com pavor de ver as horas, peguei meu celular e me surpreendi de constatar que não havia passado muito tempo. Ainda eram três e pouco da manhã.

Porque será que os passarinhos estão cantando? Eles sempre me acordam quando o sol começa a aparecer no céu! Outra questão me veio: Porque será que eles estão acordados? Será que estão falando comigo? Será que estão me fazendo companhia? Será que também pensam em bonecas de pano? Será que estão me revelando algo? Será que devo abrir a janela?

...E lá se foram mais um monte de minutos da minha sagrada noite de pretenso descanso. Continuei firme na tentativa de invocar o meu sono para que ele de onde estivesse pudesse me ouvir e vir até mim. De olhos fechados, as imagens daquelas bonecas foram me invadindo. Lembrei de cores e estampas, lembrei do lugar onde elas ficavam sentadas sempre sorrindo, ouvi os passarinhos e fiquei tentado conversar com eles na minha mente ate adormecer quase na hora de acordar.

Pela manhã, sentada na minha cama, pensei na loucura da minha madrugada e dei risada de mim mesma. Peguei meu carro e fui atrás de umas agulhas, linhas e mimosos pedacinhos de pano. Agora preciso contar isso para os passarinhos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dias frios



Gosto do frio
parecemos mais elegantes
o ar frio é nostálgico
a vida perece mais lenta.

Adoro cachecol
são coloridos
são misteriosos
aquecem a alma
me deixam mais feliz.

Casacos, boinas, botas...
A gente ganha uma faceta de cinema.

Dias cinzas me trazem tristeza o
céu nublado parece que pesa nos ombros.

Gosto de cor
O que há de mais belo do que um dia frio e azul?
Em dias gelados o sol parece a mão de Deus...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Simples assim

Ando bem tranquila com relação ao que penso e acredito. Estar sempre aberta para mudanças, amadurecimento e refinamentos é uma condição que não muda e nem pode mudar apesar dessa minha tranquilidade atual.

Me pego engajada no silêncio muitas vezes. Vejo as pessoas discutindo com afinco seus pontos de vista e crenças e me percebo fora. Já não quero mais ter razão com quase ninguém, a não ser que isso afete diretamente a minha vida e dia-dia. Aquilo que penso e acredito é fruto da minha luta pessoal, a isso dou bastante valor e me basta. Se é vivendo que se aprende, tenho aprendido com a minha caminhada e não tenho a pretensão de que minhas verdades sejam verdades para mais alguém.

Acredito na riqueza da troca porque aprendo assim também, mas somente relações muito íntimas de afeto me fazem entrar num embate filosófico sobre a vida. O silêncio me vem mais forte do que a vontade da troca. Ouvindo aprendo, ouvindo reflito, ouvindo silencio. Se ao ouvir, eu falo, é porque aquilo de fato venceu o silêncio.

Não quero ter razão. Confesso até que essa gana de ter razão ou mesmo de falar o que supostamente "não se pode deixar quieto", esta cada vez mais distante de mim. É comum eu ouvir algo que ache absurdo e ficar quieta por simplesmente estar convencida de que aquele embate não vale a pena e não trará fruto pra ninguém.

"Você não disse nada?, Não, isso não pode ficar assim!" "Tem que falar!" São frases que as vezes ouço e até compreendo, mas não sou mesmo afeita da discussão para ter razão. Enquanto o mundo se mata pra ter razão, eu prefiro ler um livro, desenhar ou assistir um filme bacana. Confesso que tenho preguiça de tentar convencer o outro do meu ponto de vista.

Me admiro sempre dos engajados. Me admiro daqueles que transformam um detalhe em um enredo. Me admiro quando vejo que não se deixa barato o menor desaforo.
Me admiro porque sempre penso que com certeza deixaria quieto por achar que a maioria das questões em pauta não valem a pena serem discutidas.

Não sei se me pareço aqui um tanto presunçosa, mas não pretendo parecer suficiente a mim mesma naquilo que penso. Só me sinto tranquila e sem vontade de defender filosofias porque acredito que elas são tão particulares que se tornam abstratas para o outro. Não sei nem se essa é a melhor postura, mas admito que é a minha. É um turbilhão interno que poucas vezes se materializa em palavras.

E assim sigo sempre observando, aprendendo e surpresa com as minhas próprias conclusões. De uma coisa eu tenho bastante convicção: Prefiro um embate comigo mesma no silêncio para ser feliz, do que um embate com você para simplesmente ter razão.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um pouco de Frida pra você...


Fui surpreendida por uma menina. Estávamos trabalhando uma obra de um artista, onde ele retratara sua família. Faríamos uma proposta semelhante de representação familiar. Com a mão erguida e impaciente uma garota linda de cabelos vermelhos pediu a palavra. Assim que concedi a ela a chance de falar, disse em alto e bom som que não iria representar sua mãe e caprichou nos adjetivos que a classificavam. Uma mãe foi seriamente ofendida. Eis que o silêncio invadiu nosso espaço.

Respirei fundo e compreendi sua reação, deixei que ela falasse sem a censurar. Sei que essa garota trás consigo uma pesada história de abandono por parte de sua mãe, algo que ela quase não suporta carregar. Criou-se uma tensão, aqueles meninos e meninas de olhos arregalados também sabiam que a linda menina tinha lá seus justos motivos para tal reação.

A chamei num canto para conversar. Disse para ela que as representações não precisam trazer a tona o ideal, mas sim o real e que se o real dela nesse contexto de família gerasse uma imagem sombria ou desconfortável, que ela se sentisse a vontade para respeitar o que estava dentro dela.

Pedi para que visse comigo as pinturas e desenhos de Frida Khalo. Frida trouxe para sua obra, toda a dor que consumia a sua vida. Suas pinturas e desenhos revelam uma mulher que sofre, que sente mágoa e raiva das suas circunstâncias existenciais. Seus desenhos são tão tristes quanto belos, tão pesados quanto sinceros, são tão agressivos quanto coloridos e tão fortes como poéticos. Frida colocou tudo pra fora e com certeza tornou sua produção redentora de si mesma.

Sem saber se tudo aquilo era demais para a linda menina de cabelos vermelhos, tentei fazer com que ela se sentisse esclarecida e apropriada de seus sentimentos por piores que fossem. Aceitar é o primeiro passo de sentir-se bem. Atenta, ela olhou para as pinturas de Frida em silêncio. Respirou fundo e perguntou: " Quer dizer que se eu representar a minha mãe e riscar a cara dela de preto, tudo bem?" Eu disse: "Tudo bem..." E aflita continuou: " Mas eu não queria desenhar ela perto do meu pai!" Continuei também: "Mas foi ela, junto com seu pai, que te deu a vida..." A menina pareceu se convencer de que aquela triste história era mesmo a história de sua vida.

Em seu desenho ela deixou claro tudo o que sentia... Foi um exercício difícil ver no papel o que ela tenta não ver na sua vida. O que vai ser da vida dessa menina linda, eu não sei, mas desejo que ela um dia tenha condição de perdoar a sua mãe e seguir em paz seu caminho.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ciclos



Férias foram feitas para o descanso, mas também para o trabalho de tudo aquilo que não tivemos tempo enquanto estávamos trabalhando. Junto com o descanso, o trabalho da organização.

Quando a gente pára, é possível perceber o quanto temos para organizar. A vida vai engolindo tudo porque não podemos parar. As demandas da sobrevivência exigem da gente um certo nível de abstração do que precisa ser engolido, digerido e aceito querendo a gente ou não. Gosto dessa pausa...

Tenho mania de arrumação. Com certeza nas férias, você pode me encontrar no quartinho de casa jogando coisa fora e espirrando com a poeira do que estava parado. Guarda-roupa também é alvo dessa minha mania. O que não uso, o que não cabe... Tirar tudo das gavetas e colocar de novo... Encontrar bilhetes que emocionam e estavam ali guardados com carinho... Encontrar no fundo da gaveta, o chocalho de quando minha filha ainda era bebê sempre me faz pensar no significado da vida e da graça de Deus.

É tempo de arrumação interna também. É tempo de respirar fundo e avaliar a alma. É tempo de silêncio. É tempo de digestão. É tempo de colocar as coisas no lugar dentro da gente. É tempo de organizar a vida...

Pra voltar a rotina, gosto de me sentir mais leve. Os esclarecimentos que o silêncio trás, vão aquietando a alma ou ao menos assentando as conclusões não tão boas... Voltar com a sensação de que não saí do lugar, me incomoda extremamente.

Gosto de pensar em ciclos. Ciclos que que se encerram, ciclos que se iniciam...