quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

É pic, é pic...!



Fazer aniversário é uma experiência bastante interessante. Você acorda, e de repente você tem um ano mais do que no dia anterior. Sempre curti muito fazer aniversário. Começo a pensar que ele está chegando uns dois meses antes, e vou curtindo a idéia até chegar o tal dia.

Essa semana completei mais um ano de vida e me senti bastante grata por ter chegado até aqui. Depois de dias seguidos de chuva e céu negro, o sol apareceu lindo e sereno e eu tive a certeza de que aquele céu azul era por minha causa, por causa do meu dia.

Pensei bastante na minha vida, na minha história. Tive a gostosa sensação de que apesar das marcas que que carrego no corpo e na alma, sou alguém muito melhor do que ontem.

O tempo é mesmo fascinante em seu poder de cura e infinita sabedoria. Estar viva hoje significa que eu resisti a turbulências que me fizeram ter certeza de que meu avião sucumbiria lá do alto. Mas não, continuo voando...

É incrível perceber como o tempo é esclarecedor apesar de cruel. Dentro da dor o tempo parece castigar na imposição de ter que viver um dia de cada vez. A caminhada as vezes parece pesada e impossível, mas depois de uma porção vivida de tempo, você é confrontado com uma clareza tão grande que chega a assustar.

Quantas vezes já agradeci por não ter acontecido o que um dia desejei com toda a minha alma? Muitas... Fico pensando que a gente não sabe mesmo de quase nada e a vida é sempre surpreendente.

Ainda bem que existe essa pausa pra olhar, principalmente para trás. Não numa atitude de lamento, mas no resgate de perceber o crescimento e as superações. Se não, a vida vai nos engolindo, porque a gente se cura de uma coisa e já sofre por outra num ciclo quase automatizado sem nenhuma reflexão.

Já me dei feliz aniversário várias vezes esses dias. Fiquei orgulhosa. Só um bolo bem gostoso de chocolate pode revelar quanta coisa boa e doce faz parte da minha caminhada. O que é amargo, deve por esses dias, ficar encostado. Nosso aniversário, é antes de mais nada, ocasião perfeita pra se dar o presente de encher a alma de esperança e gratidão.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Confesso



Uso óculos. Na verdade não sou dependente dele, ele serve para ficar à minha disposição e para a minha alegria.

Durante muitos e muitos anos eu precisei do óculos por conta de uma miopia, até me submeter a uma cirurgia que zerou tudo.

Eu gostava de usar óculos, quase desisti de curar minha vista por puro afeto a ele. Me lembro que depois da cirurgia, passei anos ajeitando no nariz um óculos que já não existia mais. Ficou esse eco.

Dentre algumas mudanças que eu observo por ter passado dos trinta anos, um leve astigmatismo apareceu.

O médico receitou o óculos somente para o caso de me sentir com a vista cansada, porque realmente o grau é bem baixo.

Acontece que carinhosamente apelidei meu óculos de placebo. Placebo, de acordo com um dicionário médico é: "nome dado a qualquer medicamento administrado mais para agradar do que beneficiar o paciente." Sabe água com açúcar que acalma a criança? Pedacinho de algodão com aguinha gelada que cura tudo? Ou mesmo uma gotinha de qualquer coisa na água que conforta até mesmo uma adulto? Pois é... Poderosos recursos mais emocionais do que qualquer outra coisa. É a nossa atitude e postura que muda, certo?

Dias de alma perturbada, são dias que chego em casa e coloco óculos. E digo uma coisa: Funciona! Se preciso clareza nas idéias e foco na mente tenho um excelente paliativo que não resolve, mas alivia. Se minha alma está pesada, minha vista fica cansada... O que é o óculos, se não um objeto que te ajuda a ver melhor e com mais clareza?!

É comum você me ver de óculos em fim de semana. A mente sem tantas obrigações com certeza é espaço para divagar nos pensamentos até se angustiar com eles. É comum me ver de óculos em casa, a noite...

Conversa de doido? Pode até ser... Mas confesso que a vida não tem tanta graça sem essas loucuras deliciosas. Entre tantas outras manias, escolhi essa pra hoje. Está rindo de mim? Tudo bem, faço muito isso também.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Fala Dr. House...



Passei uns dias de feriado na companhia do Dr. Gregory House. Estava muito mais receptível à sua maneira ranzinza de ser do que à folia a que se propõe o carnaval. E de fato o meu baile foi dentro do Princeton-Plainsboro Teaching Hospital.

O seriado americano, traz uma figura excepcional na personagem do Dr. House. Médico genial e de alma ferida, cuida a distância de seus pacientes por ser incapaz de se entregar ao contato estreito com o outro.

Está escancarado ali, como lidar com gente é umas das tarefas mais difíceis que temos que cumprir. Cada cabeça um mundo de infinitas possibilidades que funciona de um jeito único. Dr. House não faz nenhuma questão de sair do seu mundo, tampouco de entrar no mundo do outro. Sua fonte interminável de perguntas é o corpo e todos os seus complexos mecanismos que ele domina com uma maestria invejável. Não importa quem, mas sim o que. Sua busca incessante por respostas e cura, uma hora esbarra no humano, no comportamento e na alma e é nesse momento que incríveis histórias se desenrolam.

Ele é mestre, é gênio, mas é sofrido e sente dor. No amor uma perda, e no corpo uma marca. Criou uma maneira dura e sarcástica de ser. Parece uma pedra. Porém seu olhar tantas vezes revela sua alma que chora, que tem dúvida e que tem medo.

Senti uma empatia com a sua solidão. Vive com gente, mas está sempre sozinho. É claro que ali naquela ficção existe um extremo que felizmente ainda não cheguei e não pretendo chegar. Tenho muitas reservas no lidar com o outro, é comum que eu opte por estar sozinha ou fazer as coisas sozinha. Me sinto impaciente com os dramas humanos porque o meu já me basta. É um treino constante. Não falo de insensibilidade não, mas de distância mesmo. A distância parece poupar muita coisa, mas também cobra o preço alto de estar só. A mente humana é por demais complexa, cheia de loucuras e só quem as tem é capaz de entender. Todo mundo tem as suas.


Dr. House é constantemente confrontado com ele mesmo. No fundo ele sabe que sua dureza é uma resposta a sua tristeza e a sua dor. As situações da vida sempre o fazem parar para pensar. Ele não admite muita coisa, mas sua alma sabe dos seus pecados e sofre por eles.

Eu vivo aprendendo também. Não é uma tarefa fácil entrar no meu mundo particular porque geralmente as portas estão encostadas, mas só encostadas não estão trancadas não... Os mais sensíveis percebem que as minhas portas não estão trancadas e conseguem entrar, e há quem veja as portas encostadas e passam direto por não perceberem que não estavam trancadas. Eu sei que também não facilito deixando frestas para mostrar que não estão trancadas, acho que acabo perdendo, mas ainda tenho a sensação de que me poupei de muitos aborrecimentos.


Estou assistindo, refletindo, me vendo, vendo o outro e acompanhando belas histórias que trazem tanto de todos nós ora como médicos e ora como pacientes...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Adolas

Enfrentar uma sala de aula cheio de adolescentes é cada dia um desafio maior. Perguntei para mais ou menos uns cinquenta e cinco indivíduos desses, que palavra cada um escolheria para falar de uma característica marcante de sua personalidade.


Por volta dos treze anos de idade cada um topou olhar um pouquinho para dentro, mas não se anime, isso durou apenas alguns minutos. Nessa idade parecem voltar lá para a primeira infância, onde é preciso manter os pequeninos ocupados com atividades diferentes a cada cinco minutos.

Sim, me responderam com uma postura até camarada como era cada um em seu mundinho interior. Muito interessante pois descobri lindas meninas angustiadas por serem indecisas. Logo pensei eu: Que tanto será que tem que decidir nessa vida tão jovem?! Com certeza uma ebulição de sentimentos urgentes acontece ali dentro e só depois irão descobrir que toda essa urgência se ameniza na caminhada da vida e tantas perguntas vão para o túmulo com a gente sem respostas.

Um grupo de meninos se auto denominou como sendo bacanas. Passei dias me perguntando: Bacana como? Fiquei desejando que fossem mesmo bacanas como eu imagino ser a definição para essa palavra. Curiosamente me deparei também com alguns meninos que se diziam ser sexy e tinham plena convicção dessa feliz característica. Causaram um certo reboliço no grupo, pois as meninas não concordaram não com essa definição. Entramos num debate discutindo que ninguém melhor do que as meninas para legitimar esse título que eles lhes deram, e que talvez precisassem de uma série de fatores ainda em sua postura, para realmente serem sexys.


Olhando cada turma com quase trinta,entre meninos e meninas, fiquei pensando o quão preciosa é essa fase e o quanto são criaturas divertidíssimas, quando não resolvem ser maus. Pena que temos uma geração já muito afetada de angústias do nosso tempo acelerado que imprime rótulos tão descabidos banalizando a sensibilidade.

Tive que socorrer um menino que foi ridicularizado por simplesmente ser sincero ao dizer que sua característica era ser curioso. Chorava sentido... Tamanha inversão de valores dessa garotada transformou o sincero em bobo, o sensível em tolo enquanto os rasos e fúteis são exaltados.

É preciso amor para lidar com eles. É preciso que se sintam acolhidos pois a criança que carregam já está adormecida e o adulto que serão ainda não está pronto. Nesse vaco, com certeza o amor, o sorriso e a leveza são muito bem vindos para preencher essa travessia.