Comprei um quebra-cabeça. Não sei porque, andava a algum tempo procurando até que finalmente achei um do qual gostei bastante. É uma fotografia da Torre de Pisa na bela região da Toscana na Itália, dividida em mil peças.
Olhei pra caixa, vi a fotografia e li: "1000 peças". Pensei comigo: "Ah... Mil peças nem é muito... Vou levar." Ainda fiquei na dúvida se não devia ousar com um de mais peças que vi ali junto, mas achei melhor ir com calma.
Muito animada, cheguei em casa e abri a caixa. Imediatamente meu sorriso foi sumindo...Olhei aquela infinidade de peças e não sabia por onde começar. Fui ficando angustiada já querendo prever quanto tempo levaria para cumprir aquela missão. Mexi as peças pra lá e pra cá pensando porque será que tive essa idéia. Olhei bem para as peças e percebi quantas delas eram azuis, todas iguais. Como montaria aquele céu azul? Onde poderia montar? Como faria? Olhava as peças e não entendia absolutamente nada...
Assustada com a minha frustração, fechei a caixa e decidi deixa-la ali na sala à minha vista. Cruzava meu olhar com aquela caixa toda vez que passava por ela. Ali, em cima da mesa, mesmo em silêncio ela me provocava e me desafiava insistentemente. Fizemos uma guerrinha silenciosa em casa. A caixa se agigantou pra cima de mim e eu acuada olhando pra ela e pensando o que fazer.
Essa situação me fez pensar que na vida, as dificuldades fazem exatamente isso com a gente. Assustam, parecem insolúveis, impossíveis, gigantes e exageradamente complicadas de se resolver. Foi isso que senti quando me deparei com as mil pequenas peças. Pensei: $&@?#%{€£¥*%#=^, e agora?! Ferrou...A gente se depara com aquilo e fica paralisado sem sair do lugar. Eu já me senti assim, num beco de morte, com uma dor impossível de suportar e com a certeza de que daquela não passaria com vida. E adivinha? Estou aqui bem viva depois disso tudo e carrego a certeza de que a dor não só dói, mas faz a gente crescer e mudar pra melhor. Nunca mais nada me fez ficar acuada e em desespero. Lição vivida, lição para sempre aprendida.
Sim. O quebra-cabeça me fez pensar em muita coisa. E cada vez que olhava para ele ali em cima da mesa, tinha uma sensação de que ele era mais forte do que eu, tinha a sensação de que errei ao compra-lo e pior: tinha a sensação de que não seria capaz se quer de começar a monta-lo. Putz! Passei uns dias me perguntando que raio de idéia foi essa?!
Peguei a caixa. Olhei tudo de novo. Fiquei ali em silêncio. Pensei que precisava enfrentar aquilo devagar e com calma. Não queria mais conviver com a caixa na minha sala, me assustando e dizendo pra mim que ela era invencível. Sentei no chão e decidi separar dentre as mil, todas as peças que formam a borda. E lá fui eu... Uma por uma... Até que na minha frente havia apenas um punhado de peças que não me causavam medo algum. Separei por cores, consultei infinitas vezes e imagem inteira, me debrucei sobre cada encaixe para me certificar se era correto, desfiz alguns enganos que aparentemente pareciam encaixes perfeitos e assim comecei a resolver aquele problemão.
Tempos ali e foi possível ver a imagem começar a nascer. Toda a borda do chão estava montada e aquilo não representava nem metade da metade do meu quebra-cabeça, mas eu estava aliviada por ver que aquilo não era impossível. O problema ainda é grande, tenho muitas peças para quebrar a minha cabeça, mas assim como na vida, não tenho medo mais.
A medida que vou achando cada peça e visualizando uma parte daquela fotografia, tenho uma satisfação enorme! Gritei: "yeah!" quando achei uma peça que fiquei um tempão procurando. Minha filha veio correndo perguntando: "conseguiu?" E quando ela viu aquele pouquinho de peças montadas ela me perguntou: "Porque você está tão feliz se ainda falta tanto?" Respondi pra ela: "Porque não estou preocupada mais com o quebra-cabeça todo, estava procurando essa bendita peça aqui..." Quanta alegria quando a encontrei, apesar de ser uma parte tão pequena do problema.
Estou quase terminando a borda daquela imagem e esse quebra-cabeça me traz tantos pensamentos que até fiz as pazes com ele. Está lá no chão de casa agora me dizendo que os problemas assustam menos quando a gente começa a resolve-los mesmo que devagar. Ficar parada deixando que aquela caixa me amedrontasse era muito pior do que enfrenta-la. Vez por outra sento e acho algumas peças que se encaixam. A medida que o tempo passa, parte da imagem é revelada e eu fico pensando o quanto perdemos da vida por medo.
Uma peça, depois outra e outra.... Porque entendi definitivamente que o problema é gigante quando a gente não enfrenta, não mexe ou foge. Começar a montar o quebra-cabeça da vida pode nos surpreender quando nos deparamos com uma capacidade incrível de sobrevivência que temos e ainda temos a oportunidade de descobrir que somos bons em resolver problemas. Só é possível ver tudo isso quando a gente mergulha nas peças, porque longe delas o medo é infinito.