segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sacudida



De vez em quando a alma fica pesada. A mente está sempre trabalhando e tentando controlar a vida e tudo mais que vem junto com ela.

Estava assim... Quase no automático. Trabalhando e cumprindo as minhas tarefas do dia. Se estamos bem ou mal, não importa muito porque o tempo não pára, a vida não pára e as obrigações não desaparecem conforme nosso estado de espírito.

De repente um pequenino entra na minha sala onde estava sozinha e carregando um humor péssimo. "Você gosta do Homem de Ferro?" Me perguntou aquele ser quase de outro mundo, tamanha pureza. Deixei tudo que estava fazendo e me abaixei para ser agraciada por aquela conversa. "Puxa... Eu adoro o Homem de Ferro sabia?" Respondi eu emocionada e com meus olhos marejando porque aquele menino havia me tirado de dentro de mim. Então, ele continuou: "Então você vai gostar da minha máscara olha só: acende os olhos!" Colocou em si mesmo a máscara e ficou olhando pra mim. Parei. Fiquei olhando pra ele e minha alma foi invadida de serenidade.

"Vai começar a passar Homem de Ferro 3 no cinema, você vai?" Continuou o menino, com um sorriso lindo no rosto. "Eu não vejo a hora de assistir!" Respondi para ele encantada com sua leveza. "Legal. Quem sabe a gente se encontra no cinema!" E saiu correndo, me deixando ali sozinha, pensando.

Um diálogo tão simples, mas que me tirou o peso da alma. Parecia ter passado por mim um anjo trazendo um pouco de paz. As crianças carregam uma pureza tão gostosa que a simplicidade delas bate de frente com nosso lado ranzinza e chato. Talvez a vida seja muito mais como elas vêem. Talvez Deus sonhasse com isso pra gente quando nos entregou a vida e o mundo em nossas mãos, mas insistimos em complicar tudo com peso, com traumas, com poder, com ganância e com a busca dessa tal felicidade que gera tanta infelicidade.

Sorri, respirei fundo e tive a certeza de que havia recebido um recado divino.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

São tantas as verdades



O ser humano é um bicho complicado. Acho até que nosso mundo está muito bem organizado, se contar com a loucura de cada um. A gente funciona, e muito bem. Em alguns lugares certamente funciona melhor do que em outros.

Extraordinariamente complexos, cada um de nós um universo diferente. E como entender tantos universos, como fazer que se entendam entre si? A gente se entende! Se estranha, mas se entende e por isso traçamos uma história cheia de incríveis conquistas.

Previsíveis as guerras e outras atrocidades. Elas acontecem quando os universos se chocam ou adoecem. Pensando proporcionalmente ao nosso escandaloso número de sete bilhões de habitantes no planeta, até que a gente tem se saído bem. Porque quando penso nas minhas loucuras, costumo pensar que cada um carrega as suas, e isso se multiplica a números inimagináveis...

A vida sempre extrapola aquilo que acreditamos e isso incomoda pra caramba. Temos tanto trabalho em sistematizar o nosso mundo particular pra que a vida caminhe minimamente confortável, e vivemos trombando com a sistematização diferente do outro que tantas vezes abala a nossa organização interna. Isso acontece o tempo todo e com todo mundo. Ao mesmo tempo que é difícil lidar com tantas e profundas diferenças, são elas, com certeza, o que a humanidade tem de mais belo.

Tenho o meu sistema e vivo trombando com tantos outros. Dá um trabalhão acertar o passo, mas a gente precisa porque afinal caminhamos todos juntos nesse planeta. O ciclo da vida, por mais divergências entre nós, é o mesmo para todos - nascer, viver e morrer.


*Peguei esse título emprestado de Leonilson - Grande artista, de alma poética e infelizmente já falecido. São tantas as verdades, é título de uma pintura sua em tecido do ano de 1988.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Tem Mulher nessa casa

Depois de um dia de trabalho, nada melhor do que um banho quentinho, certo? Foi com esse desejo no coração que cheguei em casa. Abri o chuveiro e até suspirei com aquela água quentinha que levava embora todo o peso do dia.

Eis que num piscar de olhos quando enxaguava minha, não pouca, cabeleira, sinto uma água dolorosamente gelada cair sobre mim e o chuveiro resolveu se calar. Fechei o chuveiro, abri de novo e assim fiz algumas vezes. Nada. Ódio. O que fazer com todo aquele xampu? Como enfrentar a água gelada? E o resto do meu banho?

Numa quase tortura tive que enfrentar o que me foi imposto: Água gelada. Me coloquei a resmungar aquela maldição que de maneira alguma devia acontecer nessa vida. Banho é sagrado. Água quente é sagrada.

Terminei o meu banho numa infelicidade que não cabia em mim. Coloquei uma roupa quente pra acalmar o meu corpo que sofria de frio, e completamente irritada voltei no banheiro e encarei o chuveiro. Fiquei lá olhando pra ele e imaginando tudo que teria que fazer: Primeiro, achar alguém e segundo, esperar esse alguém resolver o tal problema. Enquanto isso, sem banho quente... Até quando?

Indignada fiquei lá olhando para aquele infeliz daquele chuveiro. Pensei comigo que não era possível aquela situação. Teria mesmo que esperar um homem aparecer?! Ah não... Uma mulher teria que ser suficiente! A raiva é mesmo um bom impulso que as vezes nos faz sair do lugar. Peguei uma escadinha, alicate, tesoura, chave de fenda e o que mais achei que fosse precisar. Desliguei a força e subi lá pensando: "Você vai se ver comigo."

Cresci vendo meu pai fazendo essas coisas de casa. Empoleirado em escadas, se equilibrando em cadeiras em cima de mesa, deitado no chão ou pendurado em algum lugar, sempre deu um jeito em tudo. Uma espécie de Mac Gyver, ele toda a vida achou uma solução para essas coisas. Tudo tirava de letra. O que você precisar é possível achar em sua mega caixa de ferramentas. E eu, desde pequena, só observando de perto. Mais parecia uma gandula ou instrumentadora cirúrgica que ia passando pra ele as ferramentas necessárias em suas operações quase impossíveis.

Em cima da escadinha tudo isso me veio a mente. Sabia exatamente o que tinha que fazer sem nunca ter feito. Desconectei os fios, um por um e desenrosquei o chuveiro da parede. Era um troféu na minha mão! Pressenti que se tratava de uma simples troca de resistência e levei o chuveiro em um lugar para consertar.

De cabelo molhado e chuveiro na mão, expliquei para a pessoa responsável o que tinha acontecido. Eu estava certa. Era apenas uma resistência queimada, e eu ainda fiquei famosa na loja por ter desinstalado sozinha o tal do chuveiro rebelde. Voltei para casa com o chuveiro consertado e orgulhosa do que a minha raiva me fez fazer.

A questão agora era instalar... Mas eu estava tão contaminada de orgulho próprio que pensei que se eu tinha tirado ele dali, seria capaz de colocar de volta. E lá vou eu na escadinha com fita isolante, veda-rosca, alicate e afins. Me senti armando uma bomba igual nos filmes do 007. Ligar os fios corretamente era imprescindível... Achei o tal do fio-terra e fiz as conexões como manda o figurino.

Chuveiro instalado, raiva orgulhosa e depois... o melhor banho do mundo!