terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Chega de natal



Uma coisa curiosa aconteceu comigo neste fim de ano. Ao voltar para minha casa da ceia de natal na madrugada do dia 25, tive vontade de desmontar minha árvore de natal e acabar logo com aquele clima natalino que envolvia todos os cômodos da casa com almofadas, bonecos de neve, presépios e etc.

Estranhei. Amo o natal e ao ver o primeiro sinal dele na cidade eu já encho minha casa de enfeites natalinos antes que comece o mês de dezembro. Religiosamente todos os anos, somente no Dia de Reis em 06 de janeiro é que guardo tudo.

Esse ano bastou acabar a ceia que o meu espírito natalino acabou junto e as luzes da minha árvore já me causavam uma certa irritação pois continuavam piscando alegremente na minha sala. Por causa da árvore, mudei um móvel de lugar e passei o mês de novembro e dezembro dando topadas nesse móvel que ficou em um lugar ingrato, mas isso não me incomodou tamanha alegria de ter em casa o espírito do natal. A primeira topada que dei no bendito móvel fora do lugar depois do natal me irritou profundamente e eu percebi que de fato o espirito natalino havia ido embora definitivamente.

Desmontei tudo antes mesmo do Reveillon e ao guardar toda aquela parafernália que eu adoro, me perguntava como será que estará minha vida quando eu pegar tudo de novo para enfeitar minha casa no próximo natal. Pronto. Entendi tudo. Foi minha ansiedade que levou embora o espírito do natal.

Um ano novo que se aproxima, parece um fantasminha que vem nos assombrar com mistérios que somos incapazes de decifrar. O que nos aguarda? O que vai acontecer? Como vai ser? Dará certo o que eu pensei? Acontecerá o que planejei? Algum sonho se realiza? Alguma fatalidade me aguarda? Terei condições vencer mais um ano? Conseguirei o que preciso? O que me surpreenderá? ...E uma infinidade de perguntas ansiosas invadem a alma e nos fazem concluir que não temos posse de nenhuma resposta para nenhumas delas.

As capas de almofada que eu comprei para brindar o ano novo em casa e substituir minhas almofadas de Papai Noel já estão no meu sofá. Elas estavam guardadas para o início do ano, mas fui incapaz de esperar. Elas ali no meu sofá já dizem "Pode chegar ano novo, chega logo que eu já estou pronta pra te enfrentar." As almofadas ali me mostram minha impaciência, meus medos e minha curiosidade com relação ao ano vindouro.

Estou certa de que que quando der meia noite, os fogos de artifício vão acalmar meu coração porque apesar de não saber o que me aguarda, pelo menos já estou dentro do ano que se inicia e não precisarei mais esperar que ele chegue. Me restará arregaçar as mangas para fazer dele um ano muito feliz.

Um abençoado ano novo a todos nós.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dois mundos



Com um grupo de adolescentes, o exercício era trabalhar a partir de alguns títulos de poesias de Vinícius de Moraes. Escolhido o título, cada um propunha uma nova poesia acompanhada de uma ilustração também pensada por eles.

Começada a aula, logo percebi que dois grandes mundos se configuraram dentro daquela sala, o mundo feminino e o mundo masculino. Fiquei bastante atenta no rumo que as produções foram tomando a partir das escolhas.

À disposição do grupo, haviam cerca de dez títulos de poesias de Vinícius como A casa, A arca de Noé entre outras poesias e muitas delas já conhecidas por eles. Percebi que naquele grupo havia em potencial homens e mulheres.

É comum brincarmos dizendo que a mulher desde bebê, já carrega características que encontramos em mulheres adultas e assim o homem também. Ali, como mediadora desse exercício de poesia e desenho, constatei que é mesmo verdade isso. Temos dois mundos muito distintos e separados por um grande abismo, que é o mundo da mulher e o mundo do homem.

Cerca de setenta por cento das meninas, optaram pelo título "A partida" e desfiaram palavras tristes de despedida de um amor que partiu. Seus desenhos eram de corações partidos, lágrimas e silhuetas de corpos que caminhavam sem olhar para trás. As palavras eram de dor, de adeus, de abandono e decepção. As cores eram suaves, melancólicas e sem vida. Rimas tristes compunham os poemas que escreviam.

Com treze anos, nenhuma delas ali sabia o que é a dor de um grande sofrimento de amor, mas já carregam dentro delas toda a sensibilidade que transborda em uma alma feminina. Tristemente havia ali um consenso de que o homem sempre parte deixando alguma mulher para trás. Me perguntei de que experiências estão cercadas essas crianças, que realidades vivem e do que se alimentam no conceito de amor. Uma poesia dramática e pesada foi aparecendo por parte das meninas, que com cumplicidade liam os textos umas das outras.

Em contrapartida os meninos escolheram em sua maioria, o título "A bomba atômica" e o único garoto que escolheu o título "A partida", seu texto era um bem humorado poema sobre uma partida de futebol. Se envolveram em falar de disputas, guerras, armas, destruição e sangue. Seus poemas eram fortes, contundentes e seus desenhos com cores vivas e linhas bem definidas.

Riam ao ler o poema de outro amigo que conseguia ser mais sanguinário que o seu próprio. Havia ali um prazer na tecnologia, nas disputas e no poder. Um universo forte e masculino estava ali em potencial. Acabaram de deixar o mundo infantil, e nesse caminho de amadurecimento, era possível perceber a importância da força e a dificuldade de dar vazão aos sentimentos.

Observei aquele incrível pequeno fenômeno que aconteceu no grupo. Sem fazer grandes leituras e interpretações, ali tinha uma pequena mostra de sociedade e toda a complexidade que existe quando se encontram esses dois universos que envolvem o ser humano.

Na semana seguinte, todos os poemas compunham o mural da sala e todos liam atentamente o que foi produzido. Meninos e meninas visitavam os dois universos curiosos e com desejo de compreender cada palavra e sentimento ali colocados. Eles não sabiam, mas ali acontecia uma prévia do que vão enfrentar no desafio da vida de compreender o universo do sexo oposto.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

E a vida sempre continua


"Traduzindo a observação de Freud para a terminologia contemporânea, sob aspecto fisiológico a ansiedade constituiria a reação afetiva correspondente à ativação do sub-sistema simpático (sistema nervoso autônomo), responsável pela configuração dos órgãos internos ( coração, pulmões, glândulas supra-renais, baço, pâncreas...), de modo a preparar o organismo para a ação...."

As teorias da ansiedade e das pulsões em Freud

Este é um pequeno trecho de um artigo cujo o ilustre autor cruzou minha vida numa triste fatalidade. Mestre em filosofia, doutor em linguística, autor de diversos livros, o professor da PUC atravessava a rua numa tarde chuvosa quando nos trombamos. Ele a pé e eu no meu carro.

Era um cruzamento sem farol. Atenta para o tráfego vindo da direita entrei no cruzamento a esquerda sem ver que o professor terminava de atravessar a rua do lado esquerdo bem no meu ponto cego. Ao fazer a curva me surpreendo com ele. Tarde demais, quando parei o carro já havia batido em seu corpo que rapidamente caiu no chão depois de um estrondo que me estremeceu inteira.

Sem pensar em nada larguei o carro no meio da rua e saí correndo. Um único pensamento ficava em minha cabeça: "Meu Deus... Atropelei um homem". Me joguei no chão para socorre-lo e tive que enfrentar a realidade de ver um senhor já de idade todo ensanguentado.

Que sensação horrível sentir o peso de uma vida em suas mãos. Angustiada peguei meu celular para chamar uma ambulância e logo senti a minha volta diversas pessoas. Umas com prontidão para ajudar e outras com olhar curioso que não ajudavam em nada.

Descobri que se tratava de um ilustre professor, seus colegas logo chegaram para ajudar pois estávamos na esquina da universidade. Além de professor, descobri também que era um homem extremamente rígido, responsável e bastante teimoso.

"Eu estou bem" - dizia ele sem saber que de seu rosto e cabeça escorria muito sangue. "Preciso voltar, ainda tenho muitas aulas para dar hoje" - insistia o professor. E eu percebi que tinha ali vários problemas: o acidente, as pessoas, o falatório e a teimosia do meu querido professor em dizer que não precisava de socorro.

Tentei com calma explicar que apesar de estar se sentindo bem, estava muito ferido e precisava aceitar ser ajudado. Lágrimas corriam pelo meu rosto, tamanha tristeza que me dava de ver meu companheiro de profissão naquele estado. Eu sabia bem o que ele sentia... Fechamento de notas, avaliações e seminários certamente ocupavam sua mente naquela hora. Fim de ano é sempre cruel para os professores e eu ainda fiz o favor de acrescentar à sua vida mais problemas para resolver.

Depois de muita discussão, eis que a presença de sua diretora ao local foi decisiva para conseguirmos convence-lo e leva-lo ao ambulatório da universidade. E lá fui eu junto sentindo um peso enorme nos meus ombros e sem acreditar que a vida sempre dá um jeitinho de me reservar surpresas. Me senti triste e cansada.

Dentro da PUC, começam os primeiros cuidados de limpeza, curativos e demais preparativos para remover o professor até o hospital. Ainda foi necessário muito tempo de conversa para que ele aceitasse ser levado. Amigos nessas horas ajudam a conversar, explicar e tranquilizar. Como é bom poder contar com essas pessoas que apesar de todo o afeto sabem dar uma bronca quando precisamos. O mais difícil foi conquistado, o professor foi convencido por todos de que precisava ser encaminhado para um hospital próximo.

Durante todo o tempo eu estava ali. Sentada numa cadeira ouvindo e observando tudo. Me sentia extremamente triste, assustada e mantendo a calma a todo custo. Na minha cabeça passavam mil coisas e me aborreci de pensar que a vida é tão cheia de tempestades que aparecem sem ao menos mandar uma nuvenzinha para sinalizar. Puxa vida! Pensava eu.... Não é pedir de mais ter um pouco de sossego? Não quero nada grandioso nessa vida por que acredito verdadeiramente que a felicidade não está no extraordinário, mas mesmo minha busca por coisas simples, leves e doces tem sido uma grande batalha.

Ali naquela cadeira desconfortável de uma enfermaria, estava entregue a um cansaço de alma e sonhando acordada com um tempo de trégua. Alguma alma triste do lado de fora da sala onde eu estava, tocava uma gaita doída que completava aquele cenário tão desesperançoso. Olhos curiosos tentavam saber o que agitava aquela enfermaria numa tarde escura e chuvosa...

Depois de cumprir todas as burocracias institucionais que pareciam ser mais importante do que um ser humano em estado de emergência, saímos dali rumo a um hospital da região. Ele, na cadeira de rodas todo cheio de curativos, a enfermeira da universidade, bombeiros e seguranças compunham uma brava equipe de resgate e logo atrás eu que apenas ia junto e já nem sabia mais o que pensar.

No hospital ele logo foi recebido como caso de emergência e sumiu no meio daquela infinidade de corredores brancos cheios de portas. Do lado de fora estava eu com o peito apertado pois já não podia fazer mais nada a não ser pedir a Deus que guardasse a vida daquele homem.

De olhos baixos enfrentei sua esposa, me apresentei e conversei resumidamente sobre o ocorrido. Para aumentar a minha angústia ela me recebeu com um silêncio seco que não transmitia nem raiva e nem tristeza. Até agora não sei o que ela pensou ou sentiu sobre o que aconteceu com seu esposo.

O dia foi longo pois depois de cuidar do professor fui cuidar de mim me assegurando de cumprir todas as formalidades legais. Na delegacia, fui esclarecida de que apesar da minha intenção correta de me apresentar, eu precisaria aguardar pois a vitima era quem tinha que dar entrada na papelada ou um policial que fosse ao local onde estivesse a vitima. Calmamente o policial me explicou que não se tratava de um acidente de trânsito, mas que atropelamento é considerado crime e por isso é tratado de uma outra forma. "Puxa! Crime?!" - pensava eu... E essa palavra maldita ficou ecoando no meu peito.

Noite a dentro na delegacia, consegui cumprir o que cabia a mim como cidadã mas queria mesmo ter o poder de reverter toda aquela situação. Fiz o que devia junto a polícia, mas não pude fazer o que queria a favor do professor.

Mais uma vez e de forma cruel a vida me mostrou como é pequeno e limitado nosso poder de ação, de controle.... Era eu ali constatando de novo que a vida está tão além do que podemos imaginar que me senti minúscula. Tive vontade de levantar o dedo para o céu e chamar Deus pra briga. Quanto mais a gente procura ser correto parece que mais atropelos estão reservados! Puxa vida! Que raio de ponto cego foi esse que me traiu a ponto de eu quase tirar a vida de um homem?! Ei universo espera um pouco! Deus, calma lá! Será possível que ninguém vê onde anda o mal para agir lá?! Não pode ser! Onde foi que eu errei? Caramba! E tive vontade de vomitar tudo isso naquela sensação que me persegue de vez em quando em pensar que está tudo errado nesse mundo. Pensei que talvez devesse aprender alguma coisa com isso, mas pensei depois que não tinha nervos pra tirar boa lição nenhuma. Me atrevi a pensar que não queria mais aprender nada na dor tamanho cansaço que ela me traz.

Fui acompanhando de longe as notícias do professor. UTI, exames, observação... Até que ele voltou para o quarto e enfim de lá saiu depois de uns dias minimamente reestabelecido. A sensação que tive era de que saindo ele do hospital, entraria eu em seu lugar e por lá ficaria uns dias para tentar superar não só o ocorrido, mas toda a turbulência de sentimentos que ele me trouxe.

Deus não comprou a minha proposta de briga e se negou a discutir comigo no termos que eu queria, mas Ele me mandou um recado muito sutil de que a vida deve continuar e que eu devo me acalmar. O recado divino veio no silêncio. De dentro do meu carro, no mesmo cruzamento, vi o professor caminhando na calçada. Com hematomas no rosto, braço enfaixado e caminhando bem devagar, ele estava continuando sua vida e eu sem saber se ria ou chorava recebia o recado de que assim como ele devo também seguir.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Aventura de natal


Montar árvore de natal é um ritual na minha casa. Todos os anos, os dias que antecedem o natal ficam mais especiais porque adoro encher a casa com esses mimos de papai noel, bonecos de neve, sininhos, laços, bolas e afins.

Meses de novembro e dezembro são meses pesados porque já estamos cansados e pelas tampas com a rotina. O clima de natal vem amenizar esse peso. A cidade ganha um colorido vermelho e luzes pequeninas enchem a cidade de estrelas.

Esse ano igualmente a todos os outros, tirei dos armários toda a parafernália natalina para montar a árvore e ocupar a casa. Para esse ritual acontecer, coloco o mesmo cd de músicas de natal que ouço todos os anos. A música começa e junto com ela toda a arrumação da casa.

Tudo pelo chão, música tocando, e felizes da vida eu e minha filha começamos a montar nossa árvore. Eis que na hora de encaixar a parte de cima da árvore, forcei demais e para a nossa tristeza infinita a árvore se quebrou e tragicamente caiu no chão.Ficamos paralisadas e em silêncio. A música continuava tocando, mas eu já não ouvia mais. Magoada, minha filhota em lágrimas dizia não acreditar que tamanho azar invadiu nosso sagrado momento de montar nossa árvore.

E agora?! Não havia milagre que deixasse nossa árvore em pé novamente. O eixo estava fatalmente partido ao meio. Maior frustração tratou de estragar nossa empolgação.

Olhamos uma para outra com aquela cara de desespero e falei pra ela que estava com uma idéia genial. Atenta e com os olhos ainda marejados, minha pequena ouviu o meu plano.

Saímos correndo e rindo de nervoso cada uma para o seu quarto e em menos de cinco minutos estávamos no elevador prontinhas para pegar o carro e sair em busca de salvar o natal da nossa casa. Nossa missão, as nove da noite, era achar uma árvore nova. Não íamos aceitar assim tão fácil!

Respiramos aliviadas e emocionadas. Achamos! Eu procurava não pensar nesse gasto extra porque nada poderia pagar nossa alegria de volta. Junto com a nova árvore, compramos latinhas de coca-cola gelada para refrescar todo o calor que veio junto com o nosso desespero.

De vota pra casa, ligamos a música de novo, brindamos com coca-cola nossa aventura bem sucedida pela cidade e esquecemos rapidinho todo aquele desgosto. De pijamas, a última coisa que fizemos foi ligar o pisca-pisca que na hora invadiu nossa sala com o clima delicioso do natal. Embaladas pelas luzes que ao piscar nos diziam que logo logo vem o papai noel, adormecemos felizes da vida.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bocão



De uma listinha de medos que eu tenho, já consegui nessa vida eliminar alguns e lidar melhor com outros.

Uma das últimas conquistas foi vencer o medo de avião que sempre carreguei comigo desde pequena. Se não venci, posso dizer que sei driblar bem isso hoje. Com certeza não me livrei daquela dor de barriga que me invade o vôo todo e nem daquela inquietação que agita a alma, mas enfrento melhor do que antes.

Esses dias tive que mexer em um medo que estava lá quietinho a algum tempo: ir ao dentista. Putz... Cheguei a ficar irritada pensando que já bastava a vida e seus problemas. Ter que sentar naquela cadeira é a morte! Sempre dei um jeito de fugir, pensando que meus cuidados com os dentes era um exemplo de perfeição. Gosto de me enganar pensando que diferente de todos os mortais, eu não preciso desse profissional na minha vida.

É claro que tive que cair na real... Disse pra mim mesma que já era bem grandinha e lá fui eu. Nem toda a simpatia, sorrisos e gracejos da doutora me fizeram achar bom estar ali. Queria mesmo continuar me enganando e viver minha vida sem ter que passar por isso!

Olha ali, olha aqui, puxa a bochecha pra lá, puxa a bochecha pra cá, põe a língua pra lá, põe a língua pra cá, cutuca um dente aqui, põe o espelhinho ali e pronto estava pronta para ouvir o plano de tratamento que ela tinha para os meus lindos e perfeitos dentes. Na minha avaliação, eu não precisava nada além de um parabéns por dentes tão maravilhosos, mas não foi bem isso que ela me falou.

A doutora tinha ao final do seu diagnóstico uma bela listinha de coisas pra fazer. Cada coisa que ela cuidadosamente me explicava, brotava em mim uma careta de medo ou no mínimo de agonia. Pensei que talvez fosse melhor não saber de nada e simplesmente fazer logo, mas a simpática doutora fez questão de me explicar tudo didaticamente tim tim por tim tim.

“Te espero semana que vem pra gente começar!” Foi assim que ela docemente se despediu de mim e eu fui embora dizendo pra mim mesma: “Não me espera não doutora, que eu não vou voltar.” Fui embora com a cabeça fervendo de me imaginar fazendo esse tratamento, que teoricamente de grave não tem nada, mas na prática qualquer procedimento é sinônimo de muito sofrimento. Claro, isso na minha cabeça.

“Bom te ver! Senta aí pra gente começar!” Lá estava eu de volta e era pra valer dessa vez. Cada instrumentinho que ela pegava, eu já imaginava o estrago... Mais de uma hora naquele sofrimento e eu só mexia meu pezinho a cada cutucada mais forte. “Tudo bem aí?” –Perguntava ela cuidadosamente e eu respondia firmemente com um falso jóia.

Apenas comecei esse delicioso tratamento. Saí de lá com vontade de chorar, com dor, com agonia e pensando de novo que não volto mais... Vou dizer que não volto mais lá até acabar o tratamento porque tenho aprendido assim: O que é a vida, se não um constante movimento de enfrentar os medos?

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Simples assim


Descobri que está muito fácil ser feliz. A gente complica tudo querendo o impossível, desejando o que só a vida e o tempo podem trazer ou controlando o que não cabe no nosso controle.


Pensando nisso fiz uma listinha de coisas que me fazem sorrir e são tão singelas que se tornam tão grandes...

Ouvir música
Cantar bem alto no volante
Céu azul
Canecas coloridas
Fazer sopinha pra galera de casa
Fazer bolo de chocolate
Comer bolo de chocolate
Frutinhas com Karo
Barulho de panela de pressão
Cházinho
Filminho
Andar de meia em casa
Pijamas coloridos
Cheirinho de chá de maçã com canela
Banho quente
Quebra cabeça
Sentar no chão
Deitar no chão
Caminhar na rua
Fone de ouvido
Canetas coloridas
Manteiga de amendoim crocante
Cachorro quente
Livros
Poesia
Coleções
Brinquedos pela casa
Desenhos pela casa
Macarrão
Sofá
Edredom
Almofadas
Mantinhas
Pantufas
Sucrilhos com banana
Bordado
Fotografias pela casa
Rádio ligado pela manhã
Desenhar no box embaçado
Cantar no chuveiro
Desenhar
Pintar
Caderninhos
Escrever
Contemplar bebês
Abraços
Pé quentinho
Corujas
Flores pela casa
Recados na geladeira
Esmaltes coloridos
Orações compridas
Falar sozinha
Casa arrumadinha
Séries da TV
Bichinhos de pelúcia


Essa é a minha listinha, coloca no papel a sua que com certeza você vai ver que tem tantos motivos para sorrir que os motivos para chorar ficam mais fáceis de aguentar...

domingo, 20 de outubro de 2013

Puzzle




Comprei um quebra-cabeça. Não sei porque, andava a algum tempo procurando até que finalmente achei um do qual gostei bastante. É uma fotografia da Torre de Pisa na bela região da Toscana na Itália, dividida em mil peças.

Olhei pra caixa, vi a fotografia e li: "1000 peças". Pensei comigo: "Ah... Mil peças nem é muito... Vou levar." Ainda fiquei na dúvida se não devia ousar com um de mais peças que vi ali junto, mas achei melhor ir com calma.

Muito animada, cheguei em casa e abri a caixa. Imediatamente meu sorriso foi sumindo...Olhei aquela infinidade de peças e não sabia por onde começar. Fui ficando angustiada já querendo prever quanto tempo levaria para cumprir aquela missão. Mexi as peças pra lá e pra cá pensando porque será que tive essa idéia. Olhei bem para as peças e percebi quantas delas eram azuis, todas iguais. Como montaria aquele céu azul? Onde poderia montar? Como faria? Olhava as peças e não entendia absolutamente nada...

Assustada com a minha frustração, fechei a caixa e decidi deixa-la ali na sala à minha vista. Cruzava meu olhar com aquela caixa toda vez que passava por ela. Ali, em cima da mesa, mesmo em silêncio ela me provocava e me desafiava insistentemente. Fizemos uma guerrinha silenciosa em casa. A caixa se agigantou pra cima de mim e eu acuada olhando pra ela e pensando o que fazer.

Essa situação me fez pensar que na vida, as dificuldades fazem exatamente isso com a gente. Assustam, parecem insolúveis, impossíveis, gigantes e exageradamente complicadas de se resolver. Foi isso que senti quando me deparei com as mil pequenas peças. Pensei: $&@?#%{€£¥*%#=^, e agora?! Ferrou...A gente se depara com aquilo e fica paralisado sem sair do lugar. Eu já me senti assim, num beco de morte, com uma dor impossível de suportar e com a certeza de que daquela não passaria com vida. E adivinha? Estou aqui bem viva depois disso tudo e carrego a certeza de que a dor não só dói, mas faz a gente crescer e mudar pra melhor. Nunca mais nada me fez ficar acuada e em desespero. Lição vivida, lição para sempre aprendida.

Sim. O quebra-cabeça me fez pensar em muita coisa. E cada vez que olhava para ele ali em cima da mesa, tinha uma sensação de que ele era mais forte do que eu, tinha a sensação de que errei ao compra-lo e pior: tinha a sensação de que não seria capaz se quer de começar a monta-lo. Putz! Passei uns dias me perguntando que raio de idéia foi essa?!

Peguei a caixa. Olhei tudo de novo. Fiquei ali em silêncio. Pensei que precisava enfrentar aquilo devagar e com calma. Não queria mais conviver com a caixa na minha sala, me assustando e dizendo pra mim que ela era invencível. Sentei no chão e decidi separar dentre as mil, todas as peças que formam a borda. E lá fui eu... Uma por uma... Até que na minha frente havia apenas um punhado de peças que não me causavam medo algum. Separei por cores, consultei infinitas vezes e imagem inteira, me debrucei sobre cada encaixe para me certificar se era correto, desfiz alguns enganos que aparentemente pareciam encaixes perfeitos e assim comecei a resolver aquele problemão.

Tempos ali e foi possível ver a imagem começar a nascer. Toda a borda do chão estava montada e aquilo não representava nem metade da metade do meu quebra-cabeça, mas eu estava aliviada por ver que aquilo não era impossível. O problema ainda é grande, tenho muitas peças para quebrar a minha cabeça, mas assim como na vida, não tenho medo mais.

A medida que vou achando cada peça e visualizando uma parte daquela fotografia, tenho uma satisfação enorme! Gritei: "yeah!" quando achei uma peça que fiquei um tempão procurando. Minha filha veio correndo perguntando: "conseguiu?" E quando ela viu aquele pouquinho de peças montadas ela me perguntou: "Porque você está tão feliz se ainda falta tanto?" Respondi pra ela: "Porque não estou preocupada mais com o quebra-cabeça todo, estava procurando essa bendita peça aqui..." Quanta alegria quando a encontrei, apesar de ser uma parte tão pequena do problema.

Estou quase terminando a borda daquela imagem e esse quebra-cabeça me traz tantos pensamentos que até fiz as pazes com ele. Está lá no chão de casa agora me dizendo que os problemas assustam menos quando a gente começa a resolve-los mesmo que devagar. Ficar parada deixando que aquela caixa me amedrontasse era muito pior do que enfrenta-la. Vez por outra sento e acho algumas peças que se encaixam. A medida que o tempo passa, parte da imagem é revelada e eu fico pensando o quanto perdemos da vida por medo.

Uma peça, depois outra e outra.... Porque entendi definitivamente que o problema é gigante quando a gente não enfrenta, não mexe ou foge. Começar a montar o quebra-cabeça da vida pode nos surpreender quando nos deparamos com uma capacidade incrível de sobrevivência que temos e ainda temos a oportunidade de descobrir que somos bons em resolver problemas. Só é possível ver tudo isso quando a gente mergulha nas peças, porque longe delas o medo é infinito.

domingo, 13 de outubro de 2013

Outubro




De repente é Outubro. Para esse ano já temos mais passado do que futuro. Os dias parecem acelerados e impiedosos. Quando éramos crianças os dias pareciam infinitos, havia tempo para tudo e tempo para não fazer nada. À medida que o tempo passa os dias encurtam...

Ouvi de alguém que o tempo que temos é só o agora porque o passado já foi e o futuro nunca chega, é como a linha do horizonte quando você tenta alcançá-la.

Parece que o corpo sente o ano acabando e vai dando sinais de esgotamento. O ano termina exatamente junto com o nosso limite.

A vida vai passando nesse cronos que sempre nos avisa que cada dia a mais é um dia a menos. Ao mesmo tempo que uns partem, outros nascem... Enquanto uns choram, outros se alegram na mesma intensidade.

O que fica é o grande desafio de deixar para trás o que passou e ter serenidade para receber o que há de vir. O hoje é o que a gente tem nas mãos e é nele a chance de dar significado para os nossos dias.

Lamentos e esperas levam o brilho embora, nos faz fantasmas do hoje porque ambos são intocáveis um passou e o outro pode não acontecer. De tão simples que é, fica complicado pensar... Que o tempo é agora.

sábado, 5 de outubro de 2013

É pra lá que eu vou



Sempre carreguei a fama de calma e paciente. De fato não sou sanguínea ou de pavio curto, mas tenho tido a consciência de que não seria nada mal dar uma explodida de vez em quando para exorcizar uns monstrinhos.

Minhas explosões são internas e meu estômago vive em cacarecos em nome dessa calma toda. Optar pelo silêncio faz estrondos por dentro, não sei se tem muito a ver com escolhas mas de verdade, bem ou mal, eu sou assim.

Ultimamente minha tão apreciada paciência parece estar entrando em extinção. Minha versão professora que o diga! Se você fizer uma ausculta no meu peito, terá a oportunidade de ouvir um magnífico coral de sapos. Todos hóspedes meus que eu engoli. Você deve ter os seus também, todos nós temos...O problema é que a impaciência guardada e silenciosa me faz sentir um cansaço de outro mundo. Tenho dito que ao invés de dormir, eu deixo de existir por algumas horas tamanha canseira que me bate! Tudo lá dentro...

Prefiro o silêncio do que ser indelicada com quem não tem culpa de nada. Isso me irrita um pouco, quando a pisada na bola é justificada por problemas pessoais. É preciso um treino constante para conseguir administrar o que é nosso e o outro não tem porque pagar.

E a chatice? Putz... Falta de paciência deixa a gente ranzinza! Outro dia o pobrezinho do garoto veio me pedir para ir ao banheiro e eu pedi para que ele fosse "bem rapidinho" por causa do horário de término da aula. Quando ele saiu correndo, eu gritei "sem correr fulano!" Nem eu me aguentei naquela manhã, que dirá o coitadinho que deve ter pensado que eu estava pra lá de chata e além de tudo confusa.

Olho aquela sala com trinta seres humanos de idade complicada e vejo milhares de situações acontecendo ao mesmo tempo, o material ganha asas e voa pela sala, as vozes ganham amplificadores, ouço o meu nome sendo chamado infinitas vezes, vejo amor entre uns e ódio entre outros.... Tudo dentro do mesmo espaço e eu procurando uma dose extra da minha tão querida paciência.

A boa notícia é que eu tenho a solução para tudo isso. Descobri que na Capadócia tem fábricas de lindos tapetes artesanais. A mulher artesã passa o dia sozinha e em silêncio na frente do tear, cruzando lindos fios coloridos por horas e dias até que seu tapete fique pronto finalmente. São lindos, caríssimos, e feitos no absoluto silêncio. Vou trabalhar lá por um tempo, fazendo lindos tapetes...Que tal?!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Retrato de família


Festas onde a família se reúne, é sempre um evento bastante interessante e cheio de emoção. Tive o prazer de ser convidada para celebrar o aniversário de uma pequena princesa que completava mais um ano de vida e trazia para seus pais o orgulho de comemorar com todos os queridos, esse grandioso presente de Deus que é a vida preciosa dela.

Família grande reunida e quanta história ali se encontrou. Além da alegria de rever a todos, meus olhos percorriam aquele lugar e minha mente resgatava um rolo de filme em preto e branco. Quanta coisa pela qual passamos, sofremos, nos alegramos e compartilhamos. A vida nem se quer por um minuto deu trégua para ninguém e o sol de cada dia nasceu independente das lutas que nos surpreenderam ou das alegrias que nos arrebataram.

Vi ali a vida estampada e cheia de surpresas. Quem ontem mesmo era um menino lindo de olhos claros e cresceu longe dos nossos olhos, era ali um rapaz que junto com o seu pai mostrava que o amor sempre prevalece e ajuda a curar tantas feridas... Quem um dia partiu pelas infelicidades e confusões da vida, voltou para nos dizer que uma vez cultivado um laço de afeto todo o restante vira apenas um detalhe, e o reencontro revela novamente o que o amor torna possível... Vidas de pequeninos que chegaram para alegrar, para realizar sonhos... Vidas que continuaram apesar das perdas enormes e hoje trazem orgulho para todos com seus filhos e famílias. Vidas que encontraram outras vidas para amar... Vidas que sonham e lutam, mas conseguem sorrir... Vidas que estão reconstruindo seu lar... Vidas que estão lutando com perdas e separações, mas que entendem que a alegria de uma nova vida agrega a todos... Lembrança dos que partiram... Lembrança dos que estão longe...

Um espetáculo ali diante dos meus olhos. Naquele espaço cabia o infinito. Naquele espaço era possível ver o que o tempo é capaz de fazer com todos nós. Naquele espaço era possível enxergar lutas vencidas e lutas travadas. Uma linda fotografia entre tantas outras entra para esse álbum cheio de histórias para contar, para rir, para chorar.

...Histórias que fazem parte da nossa vida, histórias que se confundem com a nossa história.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Problema

Tem uma coisa na minha casa.Esta na cozinha e tem um poder enorme.De qualquer lugar da casa, ouço me chamar. Evito passar perto, parece que tem uma tensão ali que dificilmente dá para fugir.

Se estou fora de casa, por vezes penso que ali na cozinha tem algo me esperando. Me assusta... Mas é tão sedutor que não resisto em me deixar levar.

Tenho fases de me permitir embriagar com tamanho prazer, mas não consigo deixar de pensar que essas fases devem ser bem curtas se não o prazer vira problema.

Estou querendo e precisando que tudo isso passe logo. O nome desse problema é: Bolo de chocolate.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bonecas e passarinhos




Outro dia fiquei intrigada com a minha noite de sono. Acordei no meio da madrugada com a cabeça teimando em não me ajudar a dormir. Me senti irritada de ver que o relógio a todo tempo me falava que meu tempo sagrado de soninho estava me escapando entre os dedos.

Quando minha cabeça foi disciplinando as angustias, minha prece já estava me invadindo de paz, me vem uma inusitada lembrança: Bonecas de pano. Abri os olhos e me coloquei a perguntar porque um ser humano pensa em bonecas de pano as três da madrugada?! Me senti irritada de novo e não entendi absolutamente nada do porque daquela loucura.

Sempre amei bonecas, em especial as de pano. Houve uma época de minha vida que gastava horas costurando retalhos para construir bonecas. Tinha orgulho delas. Dei algumas de presente e outras ficavam sentadas pela casa, me fazendo sorrir a cada vez que passava por elas.

O interessante é que eu simplesmente deletei da minha memória esse fato tão mimoso de me dedicar a construir essas criaturinhas lindas, e o mais interessante foi resgatar isso da memória no meio de uma luta contra a insônia.

Em dado momento comecei a ouvir passarinhos cantando lá fora. Me deu até arrepio de pensar que me perdi nas lembranças e já estava amanhecendo. Com pavor de ver as horas, peguei meu celular e me surpreendi de constatar que não havia passado muito tempo. Ainda eram três e pouco da manhã.

Porque será que os passarinhos estão cantando? Eles sempre me acordam quando o sol começa a aparecer no céu! Outra questão me veio: Porque será que eles estão acordados? Será que estão falando comigo? Será que estão me fazendo companhia? Será que também pensam em bonecas de pano? Será que estão me revelando algo? Será que devo abrir a janela?

...E lá se foram mais um monte de minutos da minha sagrada noite de pretenso descanso. Continuei firme na tentativa de invocar o meu sono para que ele de onde estivesse pudesse me ouvir e vir até mim. De olhos fechados, as imagens daquelas bonecas foram me invadindo. Lembrei de cores e estampas, lembrei do lugar onde elas ficavam sentadas sempre sorrindo, ouvi os passarinhos e fiquei tentado conversar com eles na minha mente ate adormecer quase na hora de acordar.

Pela manhã, sentada na minha cama, pensei na loucura da minha madrugada e dei risada de mim mesma. Peguei meu carro e fui atrás de umas agulhas, linhas e mimosos pedacinhos de pano. Agora preciso contar isso para os passarinhos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dias frios



Gosto do frio
parecemos mais elegantes
o ar frio é nostálgico
a vida perece mais lenta.

Adoro cachecol
são coloridos
são misteriosos
aquecem a alma
me deixam mais feliz.

Casacos, boinas, botas...
A gente ganha uma faceta de cinema.

Dias cinzas me trazem tristeza o
céu nublado parece que pesa nos ombros.

Gosto de cor
O que há de mais belo do que um dia frio e azul?
Em dias gelados o sol parece a mão de Deus...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Simples assim

Ando bem tranquila com relação ao que penso e acredito. Estar sempre aberta para mudanças, amadurecimento e refinamentos é uma condição que não muda e nem pode mudar apesar dessa minha tranquilidade atual.

Me pego engajada no silêncio muitas vezes. Vejo as pessoas discutindo com afinco seus pontos de vista e crenças e me percebo fora. Já não quero mais ter razão com quase ninguém, a não ser que isso afete diretamente a minha vida e dia-dia. Aquilo que penso e acredito é fruto da minha luta pessoal, a isso dou bastante valor e me basta. Se é vivendo que se aprende, tenho aprendido com a minha caminhada e não tenho a pretensão de que minhas verdades sejam verdades para mais alguém.

Acredito na riqueza da troca porque aprendo assim também, mas somente relações muito íntimas de afeto me fazem entrar num embate filosófico sobre a vida. O silêncio me vem mais forte do que a vontade da troca. Ouvindo aprendo, ouvindo reflito, ouvindo silencio. Se ao ouvir, eu falo, é porque aquilo de fato venceu o silêncio.

Não quero ter razão. Confesso até que essa gana de ter razão ou mesmo de falar o que supostamente "não se pode deixar quieto", esta cada vez mais distante de mim. É comum eu ouvir algo que ache absurdo e ficar quieta por simplesmente estar convencida de que aquele embate não vale a pena e não trará fruto pra ninguém.

"Você não disse nada?, Não, isso não pode ficar assim!" "Tem que falar!" São frases que as vezes ouço e até compreendo, mas não sou mesmo afeita da discussão para ter razão. Enquanto o mundo se mata pra ter razão, eu prefiro ler um livro, desenhar ou assistir um filme bacana. Confesso que tenho preguiça de tentar convencer o outro do meu ponto de vista.

Me admiro sempre dos engajados. Me admiro daqueles que transformam um detalhe em um enredo. Me admiro quando vejo que não se deixa barato o menor desaforo.
Me admiro porque sempre penso que com certeza deixaria quieto por achar que a maioria das questões em pauta não valem a pena serem discutidas.

Não sei se me pareço aqui um tanto presunçosa, mas não pretendo parecer suficiente a mim mesma naquilo que penso. Só me sinto tranquila e sem vontade de defender filosofias porque acredito que elas são tão particulares que se tornam abstratas para o outro. Não sei nem se essa é a melhor postura, mas admito que é a minha. É um turbilhão interno que poucas vezes se materializa em palavras.

E assim sigo sempre observando, aprendendo e surpresa com as minhas próprias conclusões. De uma coisa eu tenho bastante convicção: Prefiro um embate comigo mesma no silêncio para ser feliz, do que um embate com você para simplesmente ter razão.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um pouco de Frida pra você...


Fui surpreendida por uma menina. Estávamos trabalhando uma obra de um artista, onde ele retratara sua família. Faríamos uma proposta semelhante de representação familiar. Com a mão erguida e impaciente uma garota linda de cabelos vermelhos pediu a palavra. Assim que concedi a ela a chance de falar, disse em alto e bom som que não iria representar sua mãe e caprichou nos adjetivos que a classificavam. Uma mãe foi seriamente ofendida. Eis que o silêncio invadiu nosso espaço.

Respirei fundo e compreendi sua reação, deixei que ela falasse sem a censurar. Sei que essa garota trás consigo uma pesada história de abandono por parte de sua mãe, algo que ela quase não suporta carregar. Criou-se uma tensão, aqueles meninos e meninas de olhos arregalados também sabiam que a linda menina tinha lá seus justos motivos para tal reação.

A chamei num canto para conversar. Disse para ela que as representações não precisam trazer a tona o ideal, mas sim o real e que se o real dela nesse contexto de família gerasse uma imagem sombria ou desconfortável, que ela se sentisse a vontade para respeitar o que estava dentro dela.

Pedi para que visse comigo as pinturas e desenhos de Frida Khalo. Frida trouxe para sua obra, toda a dor que consumia a sua vida. Suas pinturas e desenhos revelam uma mulher que sofre, que sente mágoa e raiva das suas circunstâncias existenciais. Seus desenhos são tão tristes quanto belos, tão pesados quanto sinceros, são tão agressivos quanto coloridos e tão fortes como poéticos. Frida colocou tudo pra fora e com certeza tornou sua produção redentora de si mesma.

Sem saber se tudo aquilo era demais para a linda menina de cabelos vermelhos, tentei fazer com que ela se sentisse esclarecida e apropriada de seus sentimentos por piores que fossem. Aceitar é o primeiro passo de sentir-se bem. Atenta, ela olhou para as pinturas de Frida em silêncio. Respirou fundo e perguntou: " Quer dizer que se eu representar a minha mãe e riscar a cara dela de preto, tudo bem?" Eu disse: "Tudo bem..." E aflita continuou: " Mas eu não queria desenhar ela perto do meu pai!" Continuei também: "Mas foi ela, junto com seu pai, que te deu a vida..." A menina pareceu se convencer de que aquela triste história era mesmo a história de sua vida.

Em seu desenho ela deixou claro tudo o que sentia... Foi um exercício difícil ver no papel o que ela tenta não ver na sua vida. O que vai ser da vida dessa menina linda, eu não sei, mas desejo que ela um dia tenha condição de perdoar a sua mãe e seguir em paz seu caminho.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ciclos



Férias foram feitas para o descanso, mas também para o trabalho de tudo aquilo que não tivemos tempo enquanto estávamos trabalhando. Junto com o descanso, o trabalho da organização.

Quando a gente pára, é possível perceber o quanto temos para organizar. A vida vai engolindo tudo porque não podemos parar. As demandas da sobrevivência exigem da gente um certo nível de abstração do que precisa ser engolido, digerido e aceito querendo a gente ou não. Gosto dessa pausa...

Tenho mania de arrumação. Com certeza nas férias, você pode me encontrar no quartinho de casa jogando coisa fora e espirrando com a poeira do que estava parado. Guarda-roupa também é alvo dessa minha mania. O que não uso, o que não cabe... Tirar tudo das gavetas e colocar de novo... Encontrar bilhetes que emocionam e estavam ali guardados com carinho... Encontrar no fundo da gaveta, o chocalho de quando minha filha ainda era bebê sempre me faz pensar no significado da vida e da graça de Deus.

É tempo de arrumação interna também. É tempo de respirar fundo e avaliar a alma. É tempo de silêncio. É tempo de digestão. É tempo de colocar as coisas no lugar dentro da gente. É tempo de organizar a vida...

Pra voltar a rotina, gosto de me sentir mais leve. Os esclarecimentos que o silêncio trás, vão aquietando a alma ou ao menos assentando as conclusões não tão boas... Voltar com a sensação de que não saí do lugar, me incomoda extremamente.

Gosto de pensar em ciclos. Ciclos que que se encerram, ciclos que se iniciam...

terça-feira, 30 de julho de 2013

Voar é preciso


Gosto de escrever no avião porque minha cabeça sempre pensa mil coisas dentro desse trambolhão extraordinário que o homem um dia foi capaz de criar.Sou desafiada toda vez que me vejo diante do impasse: Quer viajar? Então, enfrenta o vôo.

Não gosto de voar, tenho medo, sempre tive...Toda vez que me vejo dentro desse gigante de asas penso que é exatamente essa a condição em que a gente vive. A vida? A vida é o avião, e depois que a gente entra nele não ha muito o que fazer, gostando ou não, tendo medo ou não.

Eu tento dormir, mas assim como na vida eu tenho mania de ficar prestando atenção nos movimentos e barulhos da aeronave. O que adianta? Nada, a não ser a falsa sensação de estar no controle de alguma coisa.

A sensação de impotência diante da soberania da vida, é algo que me incomoda assim como pensar que se der uma pane no avião, não ha o que fazer alem de manter a calma e tentar permanecer vivo.

Quero estar no controle sempre, mas tenho aprendido a curtir a viagem tanto de avião quanto da própria vida. A musica, os filmes e uma boa leitura são o que me fazem relaxar, e o engraçado é que as mesmas coisas me seduzem na vida fora da aeronave.

Estou sentada, calma e no treino de não me deixar levar pelo medo dentro e fora do avião.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Pequenina

Aquela caixinha de música tinha um encanto que me seduzia sempre que nela pousava meus olhos. Já tinha namorado ela tantas vezes naquela loja igualmente encantadora perto de minha casa, mas sabia que somente alguém muito especial e de alma sensível, saberia apreciar a caixinha assim como eu.

Ela é pequena. É possível ver todos os seus mecanismos que giram, todas as minúsculas teclas que são acionadas por um pequeno rolo cheio de saliências exatamente no lugar certo e na altura certa. É uma engrenagem que não fica escondida. É possível ver a música nascer.

Uma pequena manivela precisa ser girada para fazer toda essa mágica acontecer. E quando começa a tocar aquela suave melodia melancólica, o peito é invadido de um misto de beleza e nostalgia.

Algumas melodias podiam ser escolhidas naquelas caixinhas que eram quase uma pequenina e poética obra de arte. Escolhi a caixinha que tocava uma canção que falava de esperança.

Ao girar aquela pequena e frágil manivela, era possível ouvir o sonhador John Lennon nos convidando a imaginar um lugar onde as pessoas vivem em paz. Quase nos faz voar aquele som grandiosamente delicado.

Foi esse o presente especial que decidi comprar. Era um recado de amor e de esperança que eu sei que foi perfeitamente compreendido.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Golpe



Fui vítima de um golpe fracassado. Houve uma série de tentativas, mas minha astúcia não me deixou cair na fraude. Um grupinho que se achava muito esperto, tentava furtar algum material da minha sala, para aprontar alguma pela escola.

A primeira tentativa foi a mais honesta. Pediram. E eu neguei veementemente o empréstimo do material, já calculando de que seria responsabilizada por uma cambada zanzando com coisas que fazem sujeira pela escola em horário livre. Só não foi mais honesto, porque junto com o pedido, vieram uma série de desculpas esfarrapadas do destino daquele material.

A segunda tentativa foi até ousada. Enquanto um tampinha tentava me distrair com uma conversa mole, uma destemida menina adentrou à minha sala em silêncio, concentrada e direto para o meu armário. Meus olhos viam tudo, e meu coração estava até compadecido com tamanho plano quase perfeito. É claro, impedi o furto.

Tempo depois vem um malandro. Maior papo de que tinha esquecido um pertence seu, justamente no armário-alvo onde queriam chegar. Pacientemente pesquisei as características do tal objeto esquecido, me coloquei a procura-lo junto com garoto, até que ele desistiu de tentar me levar no papo e foi embora.

Na quarta tentativa, já estavam apelando para uma espécie de arrastão. Afinal, nada como colocar em prática as idéias que nossos queridos bandidos deixam todos os dias nos noticiários. Entraram em grupo grande, se espalharam pela sala numa ensaiada conversa espontânea, cheia de trejeitos e risadinhas. Um cara de pau tentava me passar uma conversa mole de aluno interessado, enquanto um outro que contava com a minha atenção dispersa em vários focos tentava se aproximar do tal armário valioso. Foi até bem articulada a organização do grupo, mas botei todo mundo pra correr novamente.

Convencida de que tinham desistido, veio a última tentativa que até me deixou na dúvida se entre tanto descaramento algo realmente poderia estar dando muito errado. Ouvi um estrondo na minha porta, alguma coisa havia batido ali com força. Alguém gritou o meu nome. Prontamente fui averiguar a causa de tamanho barulho. Eis que em minha porta havia aquela menina destemida, atirada no chão com pose de dor e as mãos no rosto ofegante. Quem gritara meu nome era o cara de pau que já havia tentado me levar na conversa. Dessa vez, ele pedia socorro em favor da destemida, alegando que ela havia batido na porta e caído. Até parecia real! Estavam realmente encenando! Genial! Conseguiram enxugar o plano com apenas dois participantes que atuariam apelando dramaticamente. Fiquei orgulhosa tamanho esforço desmedido. Quando estendi a mão para ajudar a suposta acidentada, o cara de pau rapidamente chegou a porta do meu armário. Uau... Quanta desenvoltura dessa molecada. Oxalá que se esforçassem tanto para serem bons alunos!

Tive que estragar tudo novamente e dizer a eles que desistissem. Infelizmente tive que dizer que suas tentativas estavam fracassadas e cada vez mais óbvias no seu nobre objetivo de me dar o golpe. Botei todo mundo pra correr, com a promessa de que se arrependeriam se tentassem voltar para atazanar meu horário sagrado de pausa. Fiz uma cara tão feia que meus queridos malandros se convenceram de que era melhor mesmo desistir dos planos infalíveis.

Meu momento de sossego ficou até sem graça depois dessa...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pois é...


Meu terapeuta morreu.
Estranho.
Depois de tantos anos, levou com ele um monte de coisa minha e sem me pedir...

Nunca tinha parado pra pensar numa situação dessas, na verdade acho que já me ocorreu que talvez ele fosse imortal. A gente sempre pensa na possibilidade da morte de pessoas importantes, mas de fato eu nunca o havia colocado no lugar onde eu o vi da última vez. Depois que ele partiu é que me coloquei a pensar: "Porque eu nunca pensei nisso?"

A notícia de sua morte foi como um grande susto, daqueles que te pega de surpresa e despreparado. E que notícia de morte que a gente recebe de um jeito confortável, não é? A sensação que tive muito forte foi de que aquela vida que partiu, não tinha esse direito. Como se fosse uma afronta. Depositei tanta coisa nas mãos dele, e ele simplesmente morre?!

Interessante como o nosso egoísmo é extremamente impiedoso. Nada é mais importante do que eu. Fiquei brava... Eu tinha que pelo menos imaginar algo assim! Não pensei em mais nada, somente no fato de que eu tinha perdido uma forte mão que sempre me levantava. Eu, eu, eu....

Somente ao entrar em seu velório eu me dei conta de tudo mais que ele representava. Dei de cara com sua esposa, firme, lúcida, mas bem abatida recebendo o carinho de tantos que ali se colocavam a lamentar aquela perda. Pra dilacerar meu coração, estava ali ao lado do pai falecido, como quem se compromete a cuidar até o fim, sua filha. Uma moça bela e jovem que derramava infinitas lágrimas sentidas. Seu filho estava forte, ao lado da mãe e fazendo o papel cuidador recém deixado pelo pai para ele. Assustado. Triste.

Sim. Aquelas pessoas haviam perdido muito mais do que eu. Meus problemas instantaneamente diminuíram ao ver aquela família enlutada. Pensei comigo: "Se vira aí com seus problemas e deixa ele partir em paz."

Fiquei ali... Assistindo um vídeo onde mostrava um homem que eu tinha um profundo respeito e admiração, mas alguém que não conhecia como vi naquele dia. Passavam fotos dele com sua família, em festas, viagens... Ali estava ele de verdade. Eu conhecia apenas uma faceta.

Chorei tantos dias o impacto da sua perda, mas vê-lo ali se despedindo de todos, em todas as suas facetas, me fez sentir muito honrada por ter cruzado o meu caminho com o dele.

Cheguei pertinho, olhei bem seu rosto, entendi a grandiosidade do seu trabalho e parti em paz.

Obrigada amigo, pelas muitas e preciosas horas onde descobrimos caminhos de vida, onde entendemos tantos mistérios e onde curamos tantas feridas.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Super

Ainda não vi melhor invenção do que histórias de super-heróis. A gente se realiza neles e neles são depositados todos os nossos sonhos de tudo o que a gente não pode ser. Eles nos alimentam de euforia e em contato com eles pensamos, mesmo que por um instante, que também somos muito fortes, muito extraordinários ou muito ousados na luta com a vida.


Coloquei uma roupa, um tênis, amarrei um lenço colorido no pescoço, coloquei meu óculos e enfrentei a multidão para assistir Homem de Ferro 3. Cheguei a conclusão de que só poderia ser muito amor quando vi a muvuca do cinema e disputei os últimos lugares para uma sessão num fim de tarde de sábado.

Numa galera com gente de tudo quanto é idade, me sentei para ver nosso herói tão humano, Tony Stark. De fato, ele é incrível. Muito produtiva a junção entre muito dinheiro e muita inteligência para criar. Nosso herói só foi possível com essas duas coisas, porque tirando isso, ele é humano.

Toda a fantasia do quanto é possível inventar, nos tira da poltrona e nos transporta para dentro daquela aventura. Por duas horas, esqueci completamente de que lá fora haviam muitos leões me esperando e talvez seja por isso a minha imensa paixão por cinema. Tamanho o poder de me tirar do lugar... Me perco horas a fio assistindo um filme atrás do outro. Só não mergulho mais neles porque ainda tenho uma lúcida noção de que a vida é outra fora da tela, mas confesso, me faz um bem danado.

Tony volta com crises de ansiedade que quase o faz perder a razão. É claro... Mais perto da gente ele fica, quando podemos ver um homem que também sofre. Seu sarcasmo é realmente marcante e devolve a ele uma faceta de gente que erra, de gente que tenta se superar, de gente que vive experimentando soluções pra se manter no lugar que conquistou.

Uma aventura leve apesar das criaturas do mal sempre presentes em histórias de super- heróis. Uma sucessão de coisas que dão errado me fez dar gostosas gargalhadas sozinha. Tony transforma o que era pra ser perfeito em processo e experimento. Assim como na vida real, no mundo de Tony Stark também não há garantias.

E o que dizer da surpresa de ver sua armadura, voando em partes, indo ao seu encontro?! Sério mesmo. Uma sacada genial que me trazia a maior vontade de levantar no meio da sala para comemorar. Incrivelmente envolvente aquela aventura que te faz grudar na poltrona e torcer, sofrer, xingar, chorar ou dar risada. Uma delícia de filme.

Como não pensar que aquilo tudo podia realmente dar super certo? Saí do cinema fantasiando um Homem de Ferro para nos proteger em nossa metrópole.

Super-heróis, super queridos...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sacudida



De vez em quando a alma fica pesada. A mente está sempre trabalhando e tentando controlar a vida e tudo mais que vem junto com ela.

Estava assim... Quase no automático. Trabalhando e cumprindo as minhas tarefas do dia. Se estamos bem ou mal, não importa muito porque o tempo não pára, a vida não pára e as obrigações não desaparecem conforme nosso estado de espírito.

De repente um pequenino entra na minha sala onde estava sozinha e carregando um humor péssimo. "Você gosta do Homem de Ferro?" Me perguntou aquele ser quase de outro mundo, tamanha pureza. Deixei tudo que estava fazendo e me abaixei para ser agraciada por aquela conversa. "Puxa... Eu adoro o Homem de Ferro sabia?" Respondi eu emocionada e com meus olhos marejando porque aquele menino havia me tirado de dentro de mim. Então, ele continuou: "Então você vai gostar da minha máscara olha só: acende os olhos!" Colocou em si mesmo a máscara e ficou olhando pra mim. Parei. Fiquei olhando pra ele e minha alma foi invadida de serenidade.

"Vai começar a passar Homem de Ferro 3 no cinema, você vai?" Continuou o menino, com um sorriso lindo no rosto. "Eu não vejo a hora de assistir!" Respondi para ele encantada com sua leveza. "Legal. Quem sabe a gente se encontra no cinema!" E saiu correndo, me deixando ali sozinha, pensando.

Um diálogo tão simples, mas que me tirou o peso da alma. Parecia ter passado por mim um anjo trazendo um pouco de paz. As crianças carregam uma pureza tão gostosa que a simplicidade delas bate de frente com nosso lado ranzinza e chato. Talvez a vida seja muito mais como elas vêem. Talvez Deus sonhasse com isso pra gente quando nos entregou a vida e o mundo em nossas mãos, mas insistimos em complicar tudo com peso, com traumas, com poder, com ganância e com a busca dessa tal felicidade que gera tanta infelicidade.

Sorri, respirei fundo e tive a certeza de que havia recebido um recado divino.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

São tantas as verdades



O ser humano é um bicho complicado. Acho até que nosso mundo está muito bem organizado, se contar com a loucura de cada um. A gente funciona, e muito bem. Em alguns lugares certamente funciona melhor do que em outros.

Extraordinariamente complexos, cada um de nós um universo diferente. E como entender tantos universos, como fazer que se entendam entre si? A gente se entende! Se estranha, mas se entende e por isso traçamos uma história cheia de incríveis conquistas.

Previsíveis as guerras e outras atrocidades. Elas acontecem quando os universos se chocam ou adoecem. Pensando proporcionalmente ao nosso escandaloso número de sete bilhões de habitantes no planeta, até que a gente tem se saído bem. Porque quando penso nas minhas loucuras, costumo pensar que cada um carrega as suas, e isso se multiplica a números inimagináveis...

A vida sempre extrapola aquilo que acreditamos e isso incomoda pra caramba. Temos tanto trabalho em sistematizar o nosso mundo particular pra que a vida caminhe minimamente confortável, e vivemos trombando com a sistematização diferente do outro que tantas vezes abala a nossa organização interna. Isso acontece o tempo todo e com todo mundo. Ao mesmo tempo que é difícil lidar com tantas e profundas diferenças, são elas, com certeza, o que a humanidade tem de mais belo.

Tenho o meu sistema e vivo trombando com tantos outros. Dá um trabalhão acertar o passo, mas a gente precisa porque afinal caminhamos todos juntos nesse planeta. O ciclo da vida, por mais divergências entre nós, é o mesmo para todos - nascer, viver e morrer.


*Peguei esse título emprestado de Leonilson - Grande artista, de alma poética e infelizmente já falecido. São tantas as verdades, é título de uma pintura sua em tecido do ano de 1988.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Tem Mulher nessa casa

Depois de um dia de trabalho, nada melhor do que um banho quentinho, certo? Foi com esse desejo no coração que cheguei em casa. Abri o chuveiro e até suspirei com aquela água quentinha que levava embora todo o peso do dia.

Eis que num piscar de olhos quando enxaguava minha, não pouca, cabeleira, sinto uma água dolorosamente gelada cair sobre mim e o chuveiro resolveu se calar. Fechei o chuveiro, abri de novo e assim fiz algumas vezes. Nada. Ódio. O que fazer com todo aquele xampu? Como enfrentar a água gelada? E o resto do meu banho?

Numa quase tortura tive que enfrentar o que me foi imposto: Água gelada. Me coloquei a resmungar aquela maldição que de maneira alguma devia acontecer nessa vida. Banho é sagrado. Água quente é sagrada.

Terminei o meu banho numa infelicidade que não cabia em mim. Coloquei uma roupa quente pra acalmar o meu corpo que sofria de frio, e completamente irritada voltei no banheiro e encarei o chuveiro. Fiquei lá olhando pra ele e imaginando tudo que teria que fazer: Primeiro, achar alguém e segundo, esperar esse alguém resolver o tal problema. Enquanto isso, sem banho quente... Até quando?

Indignada fiquei lá olhando para aquele infeliz daquele chuveiro. Pensei comigo que não era possível aquela situação. Teria mesmo que esperar um homem aparecer?! Ah não... Uma mulher teria que ser suficiente! A raiva é mesmo um bom impulso que as vezes nos faz sair do lugar. Peguei uma escadinha, alicate, tesoura, chave de fenda e o que mais achei que fosse precisar. Desliguei a força e subi lá pensando: "Você vai se ver comigo."

Cresci vendo meu pai fazendo essas coisas de casa. Empoleirado em escadas, se equilibrando em cadeiras em cima de mesa, deitado no chão ou pendurado em algum lugar, sempre deu um jeito em tudo. Uma espécie de Mac Gyver, ele toda a vida achou uma solução para essas coisas. Tudo tirava de letra. O que você precisar é possível achar em sua mega caixa de ferramentas. E eu, desde pequena, só observando de perto. Mais parecia uma gandula ou instrumentadora cirúrgica que ia passando pra ele as ferramentas necessárias em suas operações quase impossíveis.

Em cima da escadinha tudo isso me veio a mente. Sabia exatamente o que tinha que fazer sem nunca ter feito. Desconectei os fios, um por um e desenrosquei o chuveiro da parede. Era um troféu na minha mão! Pressenti que se tratava de uma simples troca de resistência e levei o chuveiro em um lugar para consertar.

De cabelo molhado e chuveiro na mão, expliquei para a pessoa responsável o que tinha acontecido. Eu estava certa. Era apenas uma resistência queimada, e eu ainda fiquei famosa na loja por ter desinstalado sozinha o tal do chuveiro rebelde. Voltei para casa com o chuveiro consertado e orgulhosa do que a minha raiva me fez fazer.

A questão agora era instalar... Mas eu estava tão contaminada de orgulho próprio que pensei que se eu tinha tirado ele dali, seria capaz de colocar de volta. E lá vou eu na escadinha com fita isolante, veda-rosca, alicate e afins. Me senti armando uma bomba igual nos filmes do 007. Ligar os fios corretamente era imprescindível... Achei o tal do fio-terra e fiz as conexões como manda o figurino.

Chuveiro instalado, raiva orgulhosa e depois... o melhor banho do mundo!

terça-feira, 12 de março de 2013

Vixi



Ando fazendo caretas. As sensações já não cabem mais em mim. A tolerância parece diminuir a cada dia. Aumenta a idade e diminui a paciência.

Entortar a boca, levantar as sobrancelhas, apertar os olhos, morder os lábios e fazer bico são inevitáveis sentimentos de desconforto que saem pela minha face. Difícil as vezes de segurar, mas ao menos esses sentimentos ainda não saem pela boca, traduzido em palavras.

Outro dia mesmo me recusei estar num evento social porque imaginei que minhas caretas revelariam de maneira deselegante, minha falta de paciência.

Por um lado os sentimentos ganham uma divertida faceta caricata, mas por outro lado me denunciam na minha chata intolerância.

Geralmente são reações-resposta a algum incomodo. O processo se resume assim: Me vem algo externamente ou internamente, minha mente trabalha, seguro as palavras, e elas na ânsia de sair de mim saltam na silenciosa expressão do meu rosto.

Não sou muito falante não, mas tenho muita escuta, sou atenta. Enquanto ouço o que quer que seja, brotam sentimentos de toda sorte, mas tudo geralmente em silêncio. Me revolto, discordo, acho absurdo ou me emociono, acho incrível... Todos os pensamentos se não resultam em sorriso acaba virando uma careta.

Estou parecendo o capitão Jack Sparrow...

terça-feira, 5 de março de 2013

No elevador...



Estava trabalhando.
Saí da minha sala e peguei o elevador.
A ascensorista me perguntou pra que andar estava indo.
Branco. Não sabia.
Havia esquecido completamente o porque me levantei e peguei o elevador.
Falei pra ela: " Não sei. Esqueci o que ia fazer. Vou descer no primeiro."
A porta se fechou.
Caramba... Pensei eu.
Uma angústia me bateu. Me esforcei para lembrar, e nada...
Por alguns segundos pensei que não era possível aquilo.
Não aceitei aquele branco. Fiquei com raiva.
A raiva não me serviu de nada.
Desisti.
O elevador parou.
Quando as portas se abriram, me veio a luz.
"Vou para o segundo andar". Disse eu a ascensorista que me olhou com um sorriso compadecido.
Saí do elevador aliviada.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

É pic, é pic...!



Fazer aniversário é uma experiência bastante interessante. Você acorda, e de repente você tem um ano mais do que no dia anterior. Sempre curti muito fazer aniversário. Começo a pensar que ele está chegando uns dois meses antes, e vou curtindo a idéia até chegar o tal dia.

Essa semana completei mais um ano de vida e me senti bastante grata por ter chegado até aqui. Depois de dias seguidos de chuva e céu negro, o sol apareceu lindo e sereno e eu tive a certeza de que aquele céu azul era por minha causa, por causa do meu dia.

Pensei bastante na minha vida, na minha história. Tive a gostosa sensação de que apesar das marcas que que carrego no corpo e na alma, sou alguém muito melhor do que ontem.

O tempo é mesmo fascinante em seu poder de cura e infinita sabedoria. Estar viva hoje significa que eu resisti a turbulências que me fizeram ter certeza de que meu avião sucumbiria lá do alto. Mas não, continuo voando...

É incrível perceber como o tempo é esclarecedor apesar de cruel. Dentro da dor o tempo parece castigar na imposição de ter que viver um dia de cada vez. A caminhada as vezes parece pesada e impossível, mas depois de uma porção vivida de tempo, você é confrontado com uma clareza tão grande que chega a assustar.

Quantas vezes já agradeci por não ter acontecido o que um dia desejei com toda a minha alma? Muitas... Fico pensando que a gente não sabe mesmo de quase nada e a vida é sempre surpreendente.

Ainda bem que existe essa pausa pra olhar, principalmente para trás. Não numa atitude de lamento, mas no resgate de perceber o crescimento e as superações. Se não, a vida vai nos engolindo, porque a gente se cura de uma coisa e já sofre por outra num ciclo quase automatizado sem nenhuma reflexão.

Já me dei feliz aniversário várias vezes esses dias. Fiquei orgulhosa. Só um bolo bem gostoso de chocolate pode revelar quanta coisa boa e doce faz parte da minha caminhada. O que é amargo, deve por esses dias, ficar encostado. Nosso aniversário, é antes de mais nada, ocasião perfeita pra se dar o presente de encher a alma de esperança e gratidão.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Confesso



Uso óculos. Na verdade não sou dependente dele, ele serve para ficar à minha disposição e para a minha alegria.

Durante muitos e muitos anos eu precisei do óculos por conta de uma miopia, até me submeter a uma cirurgia que zerou tudo.

Eu gostava de usar óculos, quase desisti de curar minha vista por puro afeto a ele. Me lembro que depois da cirurgia, passei anos ajeitando no nariz um óculos que já não existia mais. Ficou esse eco.

Dentre algumas mudanças que eu observo por ter passado dos trinta anos, um leve astigmatismo apareceu.

O médico receitou o óculos somente para o caso de me sentir com a vista cansada, porque realmente o grau é bem baixo.

Acontece que carinhosamente apelidei meu óculos de placebo. Placebo, de acordo com um dicionário médico é: "nome dado a qualquer medicamento administrado mais para agradar do que beneficiar o paciente." Sabe água com açúcar que acalma a criança? Pedacinho de algodão com aguinha gelada que cura tudo? Ou mesmo uma gotinha de qualquer coisa na água que conforta até mesmo uma adulto? Pois é... Poderosos recursos mais emocionais do que qualquer outra coisa. É a nossa atitude e postura que muda, certo?

Dias de alma perturbada, são dias que chego em casa e coloco óculos. E digo uma coisa: Funciona! Se preciso clareza nas idéias e foco na mente tenho um excelente paliativo que não resolve, mas alivia. Se minha alma está pesada, minha vista fica cansada... O que é o óculos, se não um objeto que te ajuda a ver melhor e com mais clareza?!

É comum você me ver de óculos em fim de semana. A mente sem tantas obrigações com certeza é espaço para divagar nos pensamentos até se angustiar com eles. É comum me ver de óculos em casa, a noite...

Conversa de doido? Pode até ser... Mas confesso que a vida não tem tanta graça sem essas loucuras deliciosas. Entre tantas outras manias, escolhi essa pra hoje. Está rindo de mim? Tudo bem, faço muito isso também.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Fala Dr. House...



Passei uns dias de feriado na companhia do Dr. Gregory House. Estava muito mais receptível à sua maneira ranzinza de ser do que à folia a que se propõe o carnaval. E de fato o meu baile foi dentro do Princeton-Plainsboro Teaching Hospital.

O seriado americano, traz uma figura excepcional na personagem do Dr. House. Médico genial e de alma ferida, cuida a distância de seus pacientes por ser incapaz de se entregar ao contato estreito com o outro.

Está escancarado ali, como lidar com gente é umas das tarefas mais difíceis que temos que cumprir. Cada cabeça um mundo de infinitas possibilidades que funciona de um jeito único. Dr. House não faz nenhuma questão de sair do seu mundo, tampouco de entrar no mundo do outro. Sua fonte interminável de perguntas é o corpo e todos os seus complexos mecanismos que ele domina com uma maestria invejável. Não importa quem, mas sim o que. Sua busca incessante por respostas e cura, uma hora esbarra no humano, no comportamento e na alma e é nesse momento que incríveis histórias se desenrolam.

Ele é mestre, é gênio, mas é sofrido e sente dor. No amor uma perda, e no corpo uma marca. Criou uma maneira dura e sarcástica de ser. Parece uma pedra. Porém seu olhar tantas vezes revela sua alma que chora, que tem dúvida e que tem medo.

Senti uma empatia com a sua solidão. Vive com gente, mas está sempre sozinho. É claro que ali naquela ficção existe um extremo que felizmente ainda não cheguei e não pretendo chegar. Tenho muitas reservas no lidar com o outro, é comum que eu opte por estar sozinha ou fazer as coisas sozinha. Me sinto impaciente com os dramas humanos porque o meu já me basta. É um treino constante. Não falo de insensibilidade não, mas de distância mesmo. A distância parece poupar muita coisa, mas também cobra o preço alto de estar só. A mente humana é por demais complexa, cheia de loucuras e só quem as tem é capaz de entender. Todo mundo tem as suas.


Dr. House é constantemente confrontado com ele mesmo. No fundo ele sabe que sua dureza é uma resposta a sua tristeza e a sua dor. As situações da vida sempre o fazem parar para pensar. Ele não admite muita coisa, mas sua alma sabe dos seus pecados e sofre por eles.

Eu vivo aprendendo também. Não é uma tarefa fácil entrar no meu mundo particular porque geralmente as portas estão encostadas, mas só encostadas não estão trancadas não... Os mais sensíveis percebem que as minhas portas não estão trancadas e conseguem entrar, e há quem veja as portas encostadas e passam direto por não perceberem que não estavam trancadas. Eu sei que também não facilito deixando frestas para mostrar que não estão trancadas, acho que acabo perdendo, mas ainda tenho a sensação de que me poupei de muitos aborrecimentos.


Estou assistindo, refletindo, me vendo, vendo o outro e acompanhando belas histórias que trazem tanto de todos nós ora como médicos e ora como pacientes...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Adolas

Enfrentar uma sala de aula cheio de adolescentes é cada dia um desafio maior. Perguntei para mais ou menos uns cinquenta e cinco indivíduos desses, que palavra cada um escolheria para falar de uma característica marcante de sua personalidade.


Por volta dos treze anos de idade cada um topou olhar um pouquinho para dentro, mas não se anime, isso durou apenas alguns minutos. Nessa idade parecem voltar lá para a primeira infância, onde é preciso manter os pequeninos ocupados com atividades diferentes a cada cinco minutos.

Sim, me responderam com uma postura até camarada como era cada um em seu mundinho interior. Muito interessante pois descobri lindas meninas angustiadas por serem indecisas. Logo pensei eu: Que tanto será que tem que decidir nessa vida tão jovem?! Com certeza uma ebulição de sentimentos urgentes acontece ali dentro e só depois irão descobrir que toda essa urgência se ameniza na caminhada da vida e tantas perguntas vão para o túmulo com a gente sem respostas.

Um grupo de meninos se auto denominou como sendo bacanas. Passei dias me perguntando: Bacana como? Fiquei desejando que fossem mesmo bacanas como eu imagino ser a definição para essa palavra. Curiosamente me deparei também com alguns meninos que se diziam ser sexy e tinham plena convicção dessa feliz característica. Causaram um certo reboliço no grupo, pois as meninas não concordaram não com essa definição. Entramos num debate discutindo que ninguém melhor do que as meninas para legitimar esse título que eles lhes deram, e que talvez precisassem de uma série de fatores ainda em sua postura, para realmente serem sexys.


Olhando cada turma com quase trinta,entre meninos e meninas, fiquei pensando o quão preciosa é essa fase e o quanto são criaturas divertidíssimas, quando não resolvem ser maus. Pena que temos uma geração já muito afetada de angústias do nosso tempo acelerado que imprime rótulos tão descabidos banalizando a sensibilidade.

Tive que socorrer um menino que foi ridicularizado por simplesmente ser sincero ao dizer que sua característica era ser curioso. Chorava sentido... Tamanha inversão de valores dessa garotada transformou o sincero em bobo, o sensível em tolo enquanto os rasos e fúteis são exaltados.

É preciso amor para lidar com eles. É preciso que se sintam acolhidos pois a criança que carregam já está adormecida e o adulto que serão ainda não está pronto. Nesse vaco, com certeza o amor, o sorriso e a leveza são muito bem vindos para preencher essa travessia.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Que tal menos discurso?



Tenho pensado em liberdade, ou melhor, tenho pensado em libertação mesmo, desapego. Discursos tem me incomodado um pouco e a alguns anos tenho experimentado a sensação da liberdade de sentir, de pensar e de não pensar nada. Discursos são exaustivos e acima de tudo parece que aprisiona, torna intolerante, torna amargo e radical demais.

Foi muito bem vinda a leitura de "Notas sobre a experiência e o saber da experiência" do professor e pesquisador espanhol Jorge Larrosa. Longe da pretensão de minimizar ou tornar superficial seu texto, voltei a pensar nessas questões todas com mais segurança quando me identifiquei com algumas reflexões bastante interessantes.

Porque será que se espera sempre uma posição diante de tudo? Porque temos que defender bandeiras? Vestir camisas? Defender idéias até a morte?

Discussões políticas, éticas, ecológicas, religiosas e não religiosas parecem ter se tornado roupas que as pessoas vestem. E roupas bem chatas. O que é grande parece tão reduzido e já não agrega mais. O conhecimento vem como organizador de grandes blocos humanos que já não tem diálogo um com o outro.

Toda a sedução do saber foi reduzida a uma questão de tomada de posição perante isso ou aquilo. O conhecimento que era para libertar vem em forma de discursos rígidos e separatistas. De certa forma reforça uma tendência que o ser humano já tem que é agregar com o igual e segregar com o diferente.

Larrosa fala de experienciar. Enquanto nos enchemos de conhecimento, que ele sabiamente chama de informação, nos privamos da experiência. Mil discursos, infinitas informações e alma rasa. "... a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo excesso de informação. A informação não é experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma inexperiência... A informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência."

Vivemos o imperativo de ter que opinar e se posicionar. A falta de posicionamento nos faz menos e nos coloca desconfortáveis no mundo social. Falemos a verdade... Tem coisa melhor do que se sentir livre para dizer " sei lá!"?! Tem coisa melhor do que permitir que a experiência do tempo, da vida, dos acontecimentos nos ensine lições preciosas?

Larrosa insiste em desmistificar esse equívoco do mito de ser alguém cheio de saberes e exalta a liberdade do sentir. Ele chega a afirmar que o sujeito cheio de opiniões e informações é alguém incapaz de experiência.

Que infelicidade ter que ser a favor ou contra sempre e sempre. Já não temos tempo para parar, refletir, sentir e ter experiências. Significativo mesmo é ser envolvido de certezas que não são da esfera intelectual e racional. Essas sim são verdadeiras porque foram experienciadas, vividas.


Tudo acontece hoje numa velocidade assustadora que definitivamente estou muito longe de conseguir acompanhar. Já muitas vezes questionei minha lentidão em refletir, refletir e refletir de novo sobre algo que chega a mim. Demoro para devolver porque fico "mastigando" por demais. Discussões enérgicas são com toda a certeza ocasiões que saio perdendo. Não sou rápida nas respostas e muitas vezes amaldiçoei não ter sido rápida e perder o momento. Já cheguei a respostas extraordinárias que nunca foram dadas porque perdi o momento. Sabe? Quando depois do ocorrido você se pergunta o porque não rasgou o verbo? Pois é... Isso ocorre comigo sempre. Hoje aceito melhor porque sei que perder o momento já me levou a grandiosas reflexões que seriam anuladas se entrasse o fator rapidez. Posso até dizer que já não me incomodo se o outro se incomoda com minhas conversas cheias de pausas silenciosas. Sou muito amiga do silêncio e amo sua sabedoria.

...Foram infinitas as reflexões provocadas pelo texto de Larrosa. Deixou uma gostosa sensação de que vale a pena investir na alma e ser grande nela. No restante, a caminhada é sempre reveladora de valiosas e significativas aprendizagens.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Mar, misterioso mar...



O mar é um grandioso presente de Deus para nós. Como uma mesa farta, ele acolhe a todos e dele nos alimentamos de paz, vigor, esperança, alegria e refrigério.

À beira da praia a areia nos convida, o cheiro nos atrai e o som das ondas invade a alma como música que embala e acalma.

Crianças brincam, famílias se reúnem, casais se apaixonam de novo...

O sol revela a imensidão das águas e nos percebemos pequenos. A natureza se agiganta no horizonte e nos intimida na nossa insistente prepotência.

Que bom poder ver o mar.. Que bom mergulhar na sua água... Que bom ouvir o seu som... Que bom entender a sua grandeza.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vamos?


O mundo não acabou. Eu até cogitei a idéia disso acontecer na véspera do 21 que era o predestinado dia... Vi as redes sociais agitadas com o fim do mundo e cheguei a pensar que se fosse mesmo verdade, não tinha o meu consentimento porque ainda quero viver muita coisa.

Acontece que o natal também já passou, e o esperado dia de festa do ano agora só se repete daqui mais um ano. Reveillon?! Virou passado e o ano chamado novo já caminha para o término do primeiro mês.

"Meu Deus do céu!" Pensei... O tempo é mesmo impetuoso e passa sem que a gente tenha tempo de digerir a vida e tudo que vai acontecendo nos nossos dias. Se fosse diferente talvez não teria tanta graça porque esse dinamismo maluco e cruel acaba temperando nossa passada por aqui.

Me vejo as vezes dividida entre as aventuras que a vida propõe e o cansaço da caminhada cheia de surpresas e tantas exigências de constante adaptação, resiliência e bravura.

Nada melhor do que um ano novo trazendo ar fresco, permitindo a gente repensar e talvez recomeçar sem se importar o quanto já caminhou. Ano que termina e ano que começa, sempre foram pra mim dias de alegria sim, mas de muita reflexão. Dias de descanso para o corpo, mas dias turbulentos na alma.

Preparados ou não para um novo ano, ele já está aí nos intimando a continuar a caminhada e ser feliz durante ela, ser feliz no passar do tempo, ser feliz em meio ao que quer que nos seja proposto. Vamos nessa?!