sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Pensando naquela conversa...
"Tive uma briga feia com a minha mãe ontem." Foi assim que começou a minha conversa com um aluno meu de 8 anos. Ele estava remoendo logo cedo a briga que teve com, provavelmente, a pessoa que ele mais ama. Com direito a gritos e agressões, as marcas daquela briga foram trazidas para a manhã seguinte quando aquele menino foi deixado na escola em silêncio e sem despedidas.
Conversamos um pouco, e rapidamente meu coração já estava encharcado de angústia por perceber como é fácil magoar alguém que a gente ama. Meu aluno estava ali diante de mim, com o coração destruído, cheio de culpa e medo. Ele não havia feito a lição de casa, mas jamais imaginou que o ônus disso seria o conflito com a mãe.
...Eu ouvia tudo e minha cabeça já pensava em milhões de coisas. Minha velha frase "está tudo errado", invadiu novamente a minha alma. Queria que aquela mãe visse como estava triste o seu filhote e como ele queria poder voltar no tempo. É claro, eu não sei a versão original de toda a história, mas a pureza daquela tristeza inocente arrebatou o meu coração.
Qualquer que tenha sido a situação, o problema é que alguém saiu ferido. Se você me disser que isso é coisa que acontece , pois conflitos fazem parte da nossa vida, eu vou concordar. A questão é como resolver, como concertar, como retomar, como voltar para o ponto onde não havia mágoas. Essa é a questão!
Estamos vivendo nesse caos porque não se gasta tempo e dedicação para concertar erros. O que acontece é uma sucessão de infelicidades de todos os lados. Um erra e fere e quem sofreu a ferida erra e fere também. E assim nascem as guerras, e assim pessoas vão se digladiando, e assim como uma bola de neve a mágoa vira ódio e inimizade a ponto de não se poder nem conviver debaixo do mesmo sol, e assim em grandes batalhas nações inteiras declaram que erros são concertados com outros erros...
Provar para si mesmo e para o outro que eu sou capaz de errar igual ou pior, vira rapidamente uma questão de orgulho. Um orgulho mortal.
Errar é muito fácil e errar com quem a gente ama é mais fácil ainda, e se não é o amor para falar mais alto, está tudo perdido.
Já ouvi muitas vezes questionamentos do tipo: "Você vai deixar barato?" E muitas vezes a minha resposta foi o sim. Já ouvi muitas vezes questionamentos por continuar sorrindo para quem me feriu mortalmente e continuo sorrindo. O que fazer? Ferir também? Tornar a vida um campo de guerra? Gastar tempo confabulando uma maneira de descontar a altura o mal que me foi feito?
...Sigo acreditando que a vida e o tempo tem um valor inestimável e não quero um dia pensar que não valeu a pena.
E para quem erra e fere é preciso deixar que o tempo mostre o quanto errou. Quando entramos em uma batalha sem fim sendo ferido e ferindo, sendo ferido e ferindo não há tempo disponível para que se perceba o erro. Alguém tem que parar! E se isso parecer fraqueza, covardia ou seja lá o que for, tudo bem... Com certeza um passo foi dado em direção a paz. Ter paz não tem preço.
Meu aluno queria fazer algo para levar para a sua mãe. " Eu preciso fazer alguma coisa pra ela" - aflito ele dizia. Passou a aula inteira modelando na argila um grande coração que embrulhou cuidadosamente, pois não queria nem deixar secar. No embrulho ele escreveu: " Te amo, te adoro. Desculpa tá?"
Simples não?! Aquele menino, ávido por uma reconciliação, em poucas palavras entendeu que o perdão é o segredo da paz. Em sua pureza de criança, ele não parou para ponderar quem errou mais ou quem estava com a razão. A única coisa que ele queria, era concertar, retomar e ver sua mãe sorrindo para ele novamente.
Emocionada me despedi dele, desejando que seu grande esforço durante a aula frutificasse lhe trazendo o que ele temia ter perdido. Depois passei o dia pensando que bom seria se conseguíssemos agir sempre assim. Viveríamos em outro mundo.
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