Dia de viajar é dia tenso.
Arrumar as malas para voltar é pior do que arrumar as malas para ir. Tem sempre alguma coisa que dá errado, você sempre nota que depois de momentos de ginástica para fechar a mala alguma coisa ficou de fora, o cadeado da mala some ou quebra, a mala resolve que não gosta mais de você e ela vai demostrar isso de alguma maneira. Você percebe que fez o cálculo errado do quanto você poderia exigir da capacidade da mala, a roupa que você vai viajar não é bem aquela que você quer mas é aquela que não cabe na mala - provavelmente um casaco gordo ou aquela bota que não cabe em lugar nenhum. O seu dia parece que tem menos horas e você fica constantemente tentando deixar tudo em dia pra que não tenha surpresas de esquecimentos de qualquer gênero.
Viajar é lindo até que você comece a perceber toda a mão de obra do ir e vir que abre e encerra a sua jornada...
Nesses últimos dias pude experimentar diversas sensações que envolvem uma viajem de férias e uma aventura fora do país. Desde tropeços homéricos com a língua estrangeira, tour em tantos lugares inclusive no hospital local, andanças eternas sem ter a mínima idéia onde estava o destino que almejava alcançar, até gostosos momentos em família, lindas paisagens e lugares e culinária incrivelmente diferente e gostosa. Quanta coisa acontece quando você embarca numa aventura fora de casa...
Depois de 15 dias fora, o meu desejo é colocar o pé dentro da minha casa. A saudade bate uma hora no peito, por mais linda que seja a paisagem que você tenha o privilégio de ter visto e por mais que grandes lutas o aguardem no retorno. Com malas prontas, depois de infinitos cálculos de preenchimento e otimização de espaço, segui para o aeroporto, que como sempre, nos presenteia com quilômetros de distância. Mesmo não sendo amiga de avião, já estava querendo a minha poltrona depois de um longo dia pré volta de férias. Puxando malas, carregando mochila, bolsa e afins, conduzindo criança, segurando passaportes e documentos, chego esbaforida e no horário certo no guichê da minha escolhida empresa de vôo.
Uma simpática senhora me dá um simpático boa noite e pede meus documentos. Entrego tudo a ela e observo toda a sua conduta na frente do computador. Esperando ali suas orientações de embarque, percebo que sua feição muda ao olhar para mim e para a sua tela. " Senhora" - disse ela com cara de preocupada. " A senhora percebeu que hoje é dia 15?" não entendi direito sua pergunta e resolvi responder com outra. "Sim, porque?" Depois de respirar corajosamente ela falou firme olhando nos meus olhos: "Porque o seu vôo foi dia 14. Ontem, senhora." Fiquei em silêncio. Senti meu corpo querendo desfalecer e meu estômago gritar por socorro. Meu ouvido silenciou todos os barulhos em volta e me presenteou com um zunido dolorido. Quem estava do meu lado me observava e também não sabia o que poderia me dizer diante daquela notícia estarrecedora.
Uma nova aventura começa. Lista de espera, opção de entrada de pedido de reembolso, pesquisa em outras companhias, hora contada, decisão, lágrimas, perguntas, possibilidades, telefonemas, nervosismo.
Rapidamente percebi que qualquer possibilidade demandaria desgaste e gastos exorbitantes. Se ficar você gasta, se trocar você gasta, se desistir você gasta, se conseguir você gasta. Com ajuda dos meus amados anfitriões, nos colocamos a buscar a solução que fosse menos pior. Internet 3G, tele-atendimento, busca de informações, pesquisas rápidas e em alguns instantes um cancelamento e uma nova passagem de outra companhia com um vôo ainda mais cedo.
Outra aventura começa. Compra de passagem, negociação, mudança de terminal e corrida contra o tempo. Éramos quatro pessoas sendo uma criança, três malas no carrinho, duas bagagens de mão e pernas pra ganhar a corrida. Que cena mais desconcertante... Todos nós correndo aeroporto a dentro carregando o mundo, mais ou menos como aquela cena marcante de Esqueceram de mim. Tudo aquilo que trouxe tensão, acabara de virar piada com a cena ridícula que tivemos todos que protagonizar. Corríamos gritando e rindo esbaforidos. Ao chegar no portão de embarque, não sabia se ria, se chorava, se despedia, se respirava, se pedia orientações. Abracei fortemente meus amados e no peito batia forte o coração. Estava ali o fim da nossa grande aventura dentro de um dos maiores aeroportos desse mundo de Deus.
Aqui estou... Dentro do avião lembrando de tudo isso e me preparando para uma nova aventura que será chegar em casa e um belo dia receber a deliciosa fatura do meu cartão de crédito que certamente me fará sentir as mesmas sensações que tive quando recebi a notícia de que havia perdido o meu vôo.
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