Gosto de assistir Blindness de
vez em quando. É inquietante e nada confortável.Incrível perceber o tamanho da
nossa fragilidade.
Saramago conseguiu nos retratar
na mais desconcertante, angustiante e triste situação tirando apenas uma coisa:
a visão. E na sua soberania de escritor ele tira a visão de uma nação inteira.
O caos se instala rapidamente e o homem-bicho se revela igual para todos. O
poder até pensa ainda trazer alguma garantia quando retira em quarentena os
primeiros cegos. Porém até os poderosos foram colocados no mesmo saco e poder
nenhum foi capaz de salvar ou privilegiar alguém.
Aqueles coitados trancafiados
numa espécie de hospital abandonado, viveram ali dentro a mais humilhante
situação de sobrevivência. A luta pelo alimento valia qualquer preço. Alguma
dignidade ainda era possível de ser encontrada em um pequeno grupo a quem
Saramago não nomeia, mas identifica como médico, a
rapariga dos óculos escuros, o velho com a venda no olho, o rapazinho
estrábico, o primeiro cego e a mulher do primeiro cego.
Maior admiração tenho pela mulher
do médico e acho na verdade, que volto a assistir o filme por causa dela.
Quando me sinto com medo e sozinha, sempre falo pra mim mesma “sou a mulher do
médico”. Gosto de brincar de me revestir dessa personagem! Ela é incrível...
Sem tempo e espaço para lamentos,
ela sai como um trator resolvendo tudo e se dedicando a tornar aquela situação
minimamente possível para sobreviver. A benção de enxergar se tornou sua grande
maldição. Durante os cento e vinte minutos do filme e aproximadamente 310
páginas do livro, ela não desistiu.
Vale a pena se aproximar dessa
história. Vale a pena refletir sobre os tamanhos de nossos problemas. Vale a
pena ser confrontado com dureza, luta e dignidade.
Nada melhor do que uma história pra
te dar um empurrãozinho... E essa, sempre me dá...

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