terça-feira, 18 de setembro de 2012

Maior empurrão


Gosto de assistir Blindness de vez em quando. É inquietante e nada confortável.Incrível perceber o tamanho da nossa fragilidade.

Saramago conseguiu nos retratar na mais desconcertante, angustiante e triste situação tirando apenas uma coisa: a visão. E na sua soberania de escritor ele tira a visão de uma nação inteira. O caos se instala rapidamente e o homem-bicho se revela igual para todos. O poder até pensa ainda trazer alguma garantia quando retira em quarentena os primeiros cegos. Porém até os poderosos foram colocados no mesmo saco e poder nenhum foi capaz de salvar ou privilegiar alguém.

Aqueles coitados trancafiados numa espécie de hospital abandonado, viveram ali dentro a mais humilhante situação de sobrevivência. A luta pelo alimento valia qualquer preço. Alguma dignidade ainda era possível de ser encontrada em um pequeno grupo a quem Saramago não nomeia, mas identifica como médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho com a venda no olho, o rapazinho estrábico, o primeiro cego e a mulher do primeiro cego.

Maior admiração tenho pela mulher do médico e acho na verdade, que volto a assistir o filme por causa dela. Quando me sinto com medo e sozinha, sempre falo pra mim mesma “sou a mulher do médico”. Gosto de brincar de me revestir dessa personagem! Ela é incrível...

Sem tempo e espaço para lamentos, ela sai como um trator resolvendo tudo e se dedicando a tornar aquela situação minimamente possível para sobreviver. A benção de enxergar se tornou sua grande maldição. Durante os cento e vinte minutos do filme e aproximadamente 310 páginas do livro, ela não desistiu.

Vale a pena se aproximar dessa história. Vale a pena refletir sobre os tamanhos de nossos problemas. Vale a pena ser confrontado com dureza, luta e dignidade.

Nada melhor do que uma história pra te dar um empurrãozinho... E essa, sempre me dá...


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