Tenho pensado em liberdade, ou melhor, tenho pensado em libertação mesmo, desapego. Discursos tem me incomodado um pouco e a alguns anos tenho experimentado a sensação da liberdade de sentir, de pensar e de não pensar nada. Discursos são exaustivos e acima de tudo parece que aprisiona, torna intolerante, torna amargo e radical demais.
Foi muito bem vinda a leitura de "Notas sobre a experiência e o saber da experiência" do professor e pesquisador espanhol Jorge Larrosa. Longe da pretensão de minimizar ou tornar superficial seu texto, voltei a pensar nessas questões todas com mais segurança quando me identifiquei com algumas reflexões bastante interessantes.
Porque será que se espera sempre uma posição diante de tudo? Porque temos que defender bandeiras? Vestir camisas? Defender idéias até a morte?
Discussões políticas, éticas, ecológicas, religiosas e não religiosas parecem ter se tornado roupas que as pessoas vestem. E roupas bem chatas. O que é grande parece tão reduzido e já não agrega mais. O conhecimento vem como organizador de grandes blocos humanos que já não tem diálogo um com o outro.
Toda a sedução do saber foi reduzida a uma questão de tomada de posição perante isso ou aquilo. O conhecimento que era para libertar vem em forma de discursos rígidos e separatistas. De certa forma reforça uma tendência que o ser humano já tem que é agregar com o igual e segregar com o diferente.
Larrosa fala de experienciar. Enquanto nos enchemos de conhecimento, que ele sabiamente chama de informação, nos privamos da experiência. Mil discursos, infinitas informações e alma rasa. "... a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo excesso de informação. A informação não é experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma inexperiência... A informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência."
Vivemos o imperativo de ter que opinar e se posicionar. A falta de posicionamento nos faz menos e nos coloca desconfortáveis no mundo social. Falemos a verdade... Tem coisa melhor do que se sentir livre para dizer " sei lá!"?! Tem coisa melhor do que permitir que a experiência do tempo, da vida, dos acontecimentos nos ensine lições preciosas?
Larrosa insiste em desmistificar esse equívoco do mito de ser alguém cheio de saberes e exalta a liberdade do sentir. Ele chega a afirmar que o sujeito cheio de opiniões e informações é alguém incapaz de experiência.
Que infelicidade ter que ser a favor ou contra sempre e sempre. Já não temos tempo para parar, refletir, sentir e ter experiências. Significativo mesmo é ser envolvido de certezas que não são da esfera intelectual e racional. Essas sim são verdadeiras porque foram experienciadas, vividas.
Tudo acontece hoje numa velocidade assustadora que definitivamente estou muito longe de conseguir acompanhar. Já muitas vezes questionei minha lentidão em refletir, refletir e refletir de novo sobre algo que chega a mim. Demoro para devolver porque fico "mastigando" por demais. Discussões enérgicas são com toda a certeza ocasiões que saio perdendo. Não sou rápida nas respostas e muitas vezes amaldiçoei não ter sido rápida e perder o momento. Já cheguei a respostas extraordinárias que nunca foram dadas porque perdi o momento. Sabe? Quando depois do ocorrido você se pergunta o porque não rasgou o verbo? Pois é... Isso ocorre comigo sempre. Hoje aceito melhor porque sei que perder o momento já me levou a grandiosas reflexões que seriam anuladas se entrasse o fator rapidez. Posso até dizer que já não me incomodo se o outro se incomoda com minhas conversas cheias de pausas silenciosas. Sou muito amiga do silêncio e amo sua sabedoria.
...Foram infinitas as reflexões provocadas pelo texto de Larrosa. Deixou uma gostosa sensação de que vale a pena investir na alma e ser grande nela. No restante, a caminhada é sempre reveladora de valiosas e significativas aprendizagens.
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