segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um pouco de Frida pra você...


Fui surpreendida por uma menina. Estávamos trabalhando uma obra de um artista, onde ele retratara sua família. Faríamos uma proposta semelhante de representação familiar. Com a mão erguida e impaciente uma garota linda de cabelos vermelhos pediu a palavra. Assim que concedi a ela a chance de falar, disse em alto e bom som que não iria representar sua mãe e caprichou nos adjetivos que a classificavam. Uma mãe foi seriamente ofendida. Eis que o silêncio invadiu nosso espaço.

Respirei fundo e compreendi sua reação, deixei que ela falasse sem a censurar. Sei que essa garota trás consigo uma pesada história de abandono por parte de sua mãe, algo que ela quase não suporta carregar. Criou-se uma tensão, aqueles meninos e meninas de olhos arregalados também sabiam que a linda menina tinha lá seus justos motivos para tal reação.

A chamei num canto para conversar. Disse para ela que as representações não precisam trazer a tona o ideal, mas sim o real e que se o real dela nesse contexto de família gerasse uma imagem sombria ou desconfortável, que ela se sentisse a vontade para respeitar o que estava dentro dela.

Pedi para que visse comigo as pinturas e desenhos de Frida Khalo. Frida trouxe para sua obra, toda a dor que consumia a sua vida. Suas pinturas e desenhos revelam uma mulher que sofre, que sente mágoa e raiva das suas circunstâncias existenciais. Seus desenhos são tão tristes quanto belos, tão pesados quanto sinceros, são tão agressivos quanto coloridos e tão fortes como poéticos. Frida colocou tudo pra fora e com certeza tornou sua produção redentora de si mesma.

Sem saber se tudo aquilo era demais para a linda menina de cabelos vermelhos, tentei fazer com que ela se sentisse esclarecida e apropriada de seus sentimentos por piores que fossem. Aceitar é o primeiro passo de sentir-se bem. Atenta, ela olhou para as pinturas de Frida em silêncio. Respirou fundo e perguntou: " Quer dizer que se eu representar a minha mãe e riscar a cara dela de preto, tudo bem?" Eu disse: "Tudo bem..." E aflita continuou: " Mas eu não queria desenhar ela perto do meu pai!" Continuei também: "Mas foi ela, junto com seu pai, que te deu a vida..." A menina pareceu se convencer de que aquela triste história era mesmo a história de sua vida.

Em seu desenho ela deixou claro tudo o que sentia... Foi um exercício difícil ver no papel o que ela tenta não ver na sua vida. O que vai ser da vida dessa menina linda, eu não sei, mas desejo que ela um dia tenha condição de perdoar a sua mãe e seguir em paz seu caminho.

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