Fui surpreendida por uma menina. Estávamos trabalhando uma obra de um artista, onde ele retratara sua família. Faríamos uma proposta semelhante de representação familiar. Com a mão erguida e impaciente uma garota linda de cabelos vermelhos pediu a palavra. Assim que concedi a ela a chance de falar, disse em alto e bom som que não iria representar sua mãe e caprichou nos adjetivos que a classificavam. Uma mãe foi seriamente ofendida. Eis que o silêncio invadiu nosso espaço.
Respirei fundo e compreendi sua reação, deixei que ela falasse sem a censurar. Sei que essa garota trás consigo uma pesada história de abandono por parte de sua mãe, algo que ela quase não suporta carregar. Criou-se uma tensão, aqueles meninos e meninas de olhos arregalados também sabiam que a linda menina tinha lá seus justos motivos para tal reação.
A chamei num canto para conversar. Disse para ela que as representações não precisam trazer a tona o ideal, mas sim o real e que se o real dela nesse contexto de família gerasse uma imagem sombria ou desconfortável, que ela se sentisse a vontade para respeitar o que estava dentro dela.
Pedi para que visse comigo as pinturas e desenhos de Frida Khalo. Frida trouxe para sua obra, toda a dor que consumia a sua vida. Suas pinturas e desenhos revelam uma mulher que sofre, que sente mágoa e raiva das suas circunstâncias existenciais. Seus desenhos são tão tristes quanto belos, tão pesados quanto sinceros, são tão agressivos quanto coloridos e tão fortes como poéticos. Frida colocou tudo pra fora e com certeza tornou sua produção redentora de si mesma.
Sem saber se tudo aquilo era demais para a linda menina de cabelos vermelhos, tentei fazer com que ela se sentisse esclarecida e apropriada de seus sentimentos por piores que fossem. Aceitar é o primeiro passo de sentir-se bem. Atenta, ela olhou para as pinturas de Frida em silêncio. Respirou fundo e perguntou: " Quer dizer que se eu representar a minha mãe e riscar a cara dela de preto, tudo bem?" Eu disse: "Tudo bem..." E aflita continuou: " Mas eu não queria desenhar ela perto do meu pai!" Continuei também: "Mas foi ela, junto com seu pai, que te deu a vida..." A menina pareceu se convencer de que aquela triste história era mesmo a história de sua vida.
Em seu desenho ela deixou claro tudo o que sentia... Foi um exercício difícil ver no papel o que ela tenta não ver na sua vida. O que vai ser da vida dessa menina linda, eu não sei, mas desejo que ela um dia tenha condição de perdoar a sua mãe e seguir em paz seu caminho.
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