De uma listinha de medos que eu tenho, já consegui nessa vida eliminar alguns e lidar melhor com outros.
Uma das últimas conquistas foi vencer o medo de avião que sempre carreguei comigo desde pequena. Se não venci, posso dizer que sei driblar bem isso hoje. Com certeza não me livrei daquela dor de barriga que me invade o vôo todo e nem daquela inquietação que agita a alma, mas enfrento melhor do que antes.
Esses dias tive que mexer em um medo que estava lá quietinho a algum tempo: ir ao dentista. Putz... Cheguei a ficar irritada pensando que já bastava a vida e seus problemas. Ter que sentar naquela cadeira é a morte! Sempre dei um jeito de fugir, pensando que meus cuidados com os dentes era um exemplo de perfeição. Gosto de me enganar pensando que diferente de todos os mortais, eu não preciso desse profissional na minha vida.
É claro que tive que cair na real... Disse pra mim mesma que já era bem grandinha e lá fui eu. Nem toda a simpatia, sorrisos e gracejos da doutora me fizeram achar bom estar ali. Queria mesmo continuar me enganando e viver minha vida sem ter que passar por isso!
Olha ali, olha aqui, puxa a bochecha pra lá, puxa a bochecha pra cá, põe a língua pra lá, põe a língua pra cá, cutuca um dente aqui, põe o espelhinho ali e pronto estava pronta para ouvir o plano de tratamento que ela tinha para os meus lindos e perfeitos dentes. Na minha avaliação, eu não precisava nada além de um parabéns por dentes tão maravilhosos, mas não foi bem isso que ela me falou.
A doutora tinha ao final do seu diagnóstico uma bela listinha de coisas pra fazer. Cada coisa que ela cuidadosamente me explicava, brotava em mim uma careta de medo ou no mínimo de agonia. Pensei que talvez fosse melhor não saber de nada e simplesmente fazer logo, mas a simpática doutora fez questão de me explicar tudo didaticamente tim tim por tim tim.
“Te espero semana que vem pra gente começar!” Foi assim que ela docemente se despediu de mim e eu fui embora dizendo pra mim mesma: “Não me espera não doutora, que eu não vou voltar.” Fui embora com a cabeça fervendo de me imaginar fazendo esse tratamento, que teoricamente de grave não tem nada, mas na prática qualquer procedimento é sinônimo de muito sofrimento. Claro, isso na minha cabeça.
“Bom te ver! Senta aí pra gente começar!” Lá estava eu de volta e era pra valer dessa vez. Cada instrumentinho que ela pegava, eu já imaginava o estrago... Mais de uma hora naquele sofrimento e eu só mexia meu pezinho a cada cutucada mais forte. “Tudo bem aí?” –Perguntava ela cuidadosamente e eu respondia firmemente com um falso jóia.
Apenas comecei esse delicioso tratamento. Saí de lá com vontade de chorar, com dor, com agonia e pensando de novo que não volto mais... Vou dizer que não volto mais lá até acabar o tratamento porque tenho aprendido assim: O que é a vida, se não um constante movimento de enfrentar os medos?
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