Em visita a 30º Bienal de Arte de São Paulo, fiquei pensando sobre essa produção contemporânea. Por um momento pensei que talvez a curadoria tivesse culpa das minhas dúvidas e sentimentos. Grandes caixas brancas abrigam blocos de obras de artistas de tudo quanto é lugar desse mundo. Senti aquele ambiente um tanto desconexo, confuso e talvez cheio demais.
Ao andar pelo pavilhão, meus olhos procuravam algo que me pegasse na alma. Tinha já saído inquieta do MAM, por ter tentado dialogar com a densa obra de Adriana Varejão que em sua exposição panorâmica, nos trás suas paredes de azulejos recheadas de carne.Forte,visceral e com certeza muito bem feito. Com referências no barroco,azulejaria e iconografias conhecidas na história da arte, Adriana certamente impressiona e traz tantas questões ligadas a própria pintura e paralelos entre beleza, crueza e dor.
Na Bienal, não queria mais ser instigada, mas tocada. Com uma certa ansiedade fui percorrendo as obras e quebrando a cabeça diante delas.Será que estou enferrujada ? Pensei. Não sou capaz de alcançar o cerne das questões desses artistas? Porque vocês não falam comigo? Fiz essa pergunta a tantas obras ali expostas.
Algumas fotografias me chamaram a atenção. Retratavam cotidiano, gente, cores, famílias... Gostoso ver e participar daquele olhar que enquadrou cenas da vida. Algumas engenhocas, a princípio um tanto descabidas... Pouco desenho para a minha tristeza, puxa vida cadê os desenhos?!
Não fui pega pela alma e saí de lá incomodada com isso porque sei que a arte tem essa faceta quase espiritual. Me lembro que Richard Long me fez chorar com sua exposição na Tate Galery. Ali, nada que impressionava mas, o silêncio profundo de sua obra foi capaz de calar uma sala cheia de gente. É isso! Acredito na arte assim. Que emociona, que pega, que faz pensar, que arrepia, que mexe. Não precisa ser belo, mas precisa falar comigo.
Senti falta de alma. Senti falta do simples. Arthur Bispo do Rosário foi capaz de dizer tanto com o pequeno gesto de juntar e organizar coisas. A alma dele está ali e isso fica claro cada vez que me deparo com seus trabalhos. É sincero. Que bom que ele está nessa Bienal. Vale a pena dar uma conferida.
Mundo caótico e arte que acompanha o caos. Será? Quais as questões que gritam? Como falar delas? O que move essas produções? Gosto quando vejo poesia... Gosto quando vejo o silêncio... Gosto quando vejo o simples dizer muito...
Delicioso esse exercício de refletir, tentar entender, ser confrontado, vislumbrar idéias, pensamentos, cores. Quanta experiência marcante nos trás uma Bienal. Vamos lá? Coloque sua cabeça pra funcionar! Arte traduz vida e a vida sempre pede arte.
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