Lembra como era especialmente gostosa a Coca-Cola na garrafa de vidro? Parecia melhor porque Coca-Cola era coisa de festa e fim de semana. Sentar à mesa e ter uma garrafa daquelas à nossa frente era algo extraordinário e brilhava nossos olhos de criança. Até mesmo o processo de guardar as garrafas, ter em casa um engradado para acomodá-las e ir na vendinha da esquina para fazer a troca era algo que tinha peso na nossa rotina. Fora dizer que o sabor era demasiadamente gostoso porque apesar de ser a mesma Coca-Cola de hoje, antes nela estava agregado o especial, o extraordinário e o significado de consumi-la em dias especiais. Tinha gosto férias, de praia, de primos, de família, de comemorações... Esses eram os ingredientes que faziam dela algo tão gostoso e hoje, não há tecnologia que resgate esse sabor.
A Coca-cola continua gostosa e talvez igual, mas não é mais especial. Há opções e embalagens que se encaixam em qualquer necessidade. Latinhas para matar a "sede" podem ser adquiridas em qualquer lugar, garrafas de 600ml, 1,5, 2 e 3 litros podem se encaixar em qualquer necessidade do seu dia ou evento. É tão banal que a gente é capaz de esquecer em qualquer lugar a latinha que estava tomando e não ligar porque bem ali à sua frente você pode comprar outra e isso não vai onerar tanto o seu bolso. Até opção de mini latinha a gente tem pra quando você quer dar só aquele golinho pra matar a vontade ou oferecer para alguma criança sem tanto desperdício. Enfim, a idéia é você ter o especial de antes a qualquer momento de maneira prática e barata. O descartável veio para nós com uma proposta revolucionária.
O que me assusta, é sentir que a humanidade se animou com a idéia do descartável, e esse conceito passa a habitar as relações entre as pessoas. O conceito de amor parece que padeceu junto com a nossa evolução e o outro pode ser descartado como uma garrafinha Pet se eu sinto que ele não me serve mais. É completamente compreensível o porque as grandes histórias de amor se tornam tão admiradas, pois parecem que são parte de um imaginário somente fantástico e não real. Lindas histórias de amor estão habitando o mesmo universo das histórias de super heróis.
Não se vê mais sacrifícios, lutas heróicas, tão pouco escandalosas demonstrações de amor. E se isso acontece, vira um vídeo viral no You Tube por conta da sua raridade. O que era para ser regra vira exceção e tudo bem. Hoje eu te quero e amanhã não quero mais, hoje você é a minha vida e amanhã minha vida não é mais você, e assim a gente vai caminhando e deixando para trás as pessoas como latinhas de Coca-Cola.
Nos orgulhamos de viver um tempo onde se diz "Eu te amo" pelo Whatsapp e a nossa carência hoje tem a ver com quantas curtidas alcançamos com uma postagem no Facebook. Construímos relacionamentos teclando no celular e perdemos a dimensão do toque e do olhar. Estar junto parece que nos deixa menos a vontade do que estar online.
Dizer ao outro que não o ama mais parece tão fácil como pedir uma Coca-Cola com gelo e limão. Mexer na alma das pessoas sem ter a dimensão de que aquele espaço é sagrado se tornou hoje uma coisa corriqueira. Os relacionamentos de afeto são uma aposta que conta com a sorte e as possibilidades são tantas, que uma perda parece não representar muito uma vez que a nossa referência já não está no extraordinário e muito menos no arrebatador.
O descartável transcendeu à embalagem da nossa querida Coca-Cola e invadiu nosso mundo interior. É assustador perceber que vez por outra lutamos contra a sensação de nos sentir como garrafinhas Pet que são descartadas por aí. É no amor, no trabalho ou em qualquer outra relação interpessoal.
Gostoso mesmo é ser tratado, admirado e desejado como uma gelada e gostosa Coca-Cola de garrafa de vidro, não é mesmo?
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