quinta-feira, 10 de abril de 2014

Offline




Recebi um presente essa semana. Meu celular pifou, apagou, bateu as botas de uma hora para outra, sem avisar, sem cair (fato comum em se tratando de mim), sem mais nem menos.
Minha primeira reação foi bem ruim. Fiquei mal, me senti solta, ameaçada na minha rotina, meio manca, me senti azarada e já somei esse fato com outros azares da minha vida. Sabe? Quando você fica meio amargo, praguejando as coisas da vida e se sentindo a única pessoa que sofre no mundo? Pois é... Achei que o celular morto viesse para somar as perdas e os problemas. Enfim, essas loucuras da nossa cabeça ou, da minha cabeça.

Por conta dessa maldição, peguei um transito infernal para levar o tal aparelho na assistência técnica autorizada lá onde Judas perdeu as botas. Estava com raiva ainda. Lá, dei adeus ao celular e me deparei com a notícia de que enfrentaria a vida sem ele nos próximos dias.

A fim de somente não ficar incomunicável, coloquei meu chip em um aparelhozinho de celular que tenho guardado para emergências como essa. Fazer ligação, receber ligação e é só isso que ele faz. Coloquei o celularzinho cor de rosa na bolsa e experimentei meus primeiros dias offline.

Como de costume, fui fazer minha caminhada matinal logo as sete da manhã. Música? Sem celular, sem música... Comecei a andar e logo minha música foi o som da cidade, as conversas das pessoas que caminhavam também, o piado das galinhas e pintinhos do parque conversando entre si, o barulho das pombas atiçadas com o sol que começava a aparecer dentre as nuvens, o som do vento nas árvores e os barulhos do meu pensamento. Uma sinfonia que não costumo ouvir, mas que agraciou a minha caminhada.

Me senti sozinha comigo e foi bom. Sem Facebook. Sem postar absolutamente nada, tampouco ver postagens dos outros. Onde fulano foi, o que comeu, quem comentou o que, quem esteve com quem, quem pensou tal coisa, quem ousou postar uma afronta contra a Dilma ou ao governo, quem lançou uma piadinha, quem indicou um video bacana, quem escreveu alguma coisa sem noção, quem postou uma foto legal, quem fez biquinho pra tirar foto, quem viajou, quem mudou de status, quem adicionou quem, quem fez aniversário, quem colocou a foto da galera abraçada, e assim o nosso tempo é consumido com informações absolutamente irrelevantes que a gente se acostumou a ver. Fora dizer aquilo que você não gostaria de ver e acaba vendo!

Sem whatsapp. Tirando aqueles que estão realmente distantes, o whatsapp andava me angustiando por substituir relações, aliás essa sempre foi minha briga com ele. A gente fica alternando por se sentir mal com a mensagem que recebeu ou se sentir mal com a mensagem que não recebeu, ou tentando explicar teclando aquilo que um olhar explicaria, ou buscando a certeza que vai ser entendido por texto porque se fosse pessoalmente não deixaria dúvida, ou monitorando se sua mensagem foi lida, ou esperando ser respondido... Estava um tanto enfastiada apesar de admitir que foi uma extraordinária invenção.

Sem câmera. Me peguei olhando tudo sem o intermédio do celular. Nossa reação habitualmente é sacar o celular pra não perder a oportunidade. Compartilhar com o mundo as nossas experiências é muito bacana, mas tem nos tirado o momento do olhar, do curtir e do apreciar.

Offline. Sem olhar no celular de cinco em cinco minutos para o que quer que seja e eu senti o gostinho do desapego. Continuo viva e meu número é o mesmo. Se alguém quiser falar comigo de verdade, vai conseguir me encontrar. Longe de mim discursar contra toda essa tecnologia que nos une, sou usuária de tudo isso e gosto. O que me assusta é a proporção que tomou tudo isso e como a gente se habitua a relações online. É apenas uma pausa boa para refletir e experimentar a vida sem essa condição que nos faz refém.

Dias inéditos sem celular e isso me pareceu uma proposta bastante bem vinda. A assistência técnica ligou gentilmente para avisar que a reparação do meu aparelho demoraria mais do que o tempo inicialmente combinado. Ótimo! Ainda pensei o seguinte: Se a morte do meu celular foi uma providência divina como estou achando, o pessoal da assistência técnica vai ter um trabalhão para reverter uma ordem que veio do céu.

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