Oito e meia da noite e quase ninguém respira esperando o final das apurações das eleições para presidente da república. A primeira amostragem de números e porcentagem, já nos revelou uma grande chance de saber de onde viria a vitória. Do sofá da minha casa, não sabia se prestava atenção na apuração acirrada ou na troca de xingamentos das pessoas dos prédios vizinhos. Sim, pessoas se ofendendo em prédios diferentes, gritando das janelas de suas casas.
Angústia foi o que senti. Aliás, angústia foi o que senti durante todo o processo das eleições para presidente da república esse ano. Me assustou observar o comportamento da nação diante da tão sonhada democracia. Digo observar porque foi no silêncio que tentei chegar a alguma conclusão lúcida sobre o meu voto. Pouco participei de conversas acaloradas e não me envolvi em qualquer tipo de engajamento.
Não, não deixei de me interessar, mas sim, optei por falar pouco e ouvir muito. Um milhão de prós e contras de qualquer lado que se pretenda seguir e pouco se sabe da verdade dos fatos bons ou ruins. Nós na posição de eleitores, somos manipulados de todos os lados porque temos em nossas mãos um poderoso agente transformador: o voto.
A democracia me pareceu perdida no meio de uma equivocada guerra civil onde uma onda de ódio e desrespeito a liberdade invadiu nossas relações com o próximo. Rótulos cruéis foram colocados em todos seja lá qual for a escolha, e num piscar de olhos o país se dividiu em mocinhos e bandidos, ricos e pobres, ignorantes e inteligentes, sensíveis e arrogantes e certos e errados. Não importa a sua escolha, qualquer conclusão que você chegar em sua consciência vai te enquadrar em algumas dessas características ofensivas.
A discussão que poderia construir, contribuir e somar ficou rasa na simplificação de uma visão de contos de fadas que é a luta do bem contra o mal. Infelizmente não foi possível cavar mais fundo nas questões onde todas as visões trazem consigo realidades vividas e reais. Como questionar a escolha daquele que só teve uma segunda chance na vida a partir de um auxílio do governo que lhe permitiu ao menos sair do lugar? Como questionar a escolha daquele que luta honestamente para manter vivo o seu negócio pagando impostos assustadores e indevidos?
Essas questões são somente um exemplo da complexidade das discussões que envolvem a todos nós seja qual for a cor, classe social ou a religião. As lutas e os desafios são para todos e existe o bem e o mal em qualquer lugar que se transite nesse mundo. As classes sociais foram travestidas de bem e mal e determinantes para nos definir em nossos princípios e valores como pessoa. Certamente foi marcante ver o mapa do país dividido em sua escolha e com certeza esse é o grande desafio do governo eleito.
Não temos garantias nunca. O poder ocupado por quem escolhemos na urna nos garante o que? O mesmo povo que saiu nas ruas parece que se esqueceu como lidar com a conquista da democracia. Democracia é isso, vence a maioria. Resultados das urnas não nos isentam de continuar na luta por uma vida melhor e por um país melhor sempre seja lá quem ocupe o poder.
Oxalá que saibamos agora como seguir, uma vez que é finda as eleições.
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