terça-feira, 14 de outubro de 2014

E segue o caminhão...





Parada no trânsito. Me dei conta que estava atrás de um caminhão de uma transportadora antiga que carregou muitas mudanças da minha família. Fiquei olhando para ele ali parada, parecia até o mesmo. Grandão, meio empoeirado, com o mesmo nome e com as mesmas cores. Sim, voltei no tempo no meio daquele trânsito exaustivo.

Aquele caminhão já esteve parado na porta da minha casa, ou melhor, na porta de tantas casas que eu morei. Ora ele chegava e levava tudo, ora ele chegava e nos devolvia tudo em um novo lugar. Com uma infância meio cigana, estávamos de quando em vez nos mudando de cidade acompanhando a trajetória sempre corajosa de papai.

"Teremos que nos mudar, precisam de mim em tal lugar. Só vamos se todos concordarem enfrentar essa nova fase do trabalho do papai" e era assim que éramos confrontados com a notícia das nossas mudanças. Numa reunião democrática de família, ainda crianças eu e meus irmãos desde pequenos tínhamos também em nossas mãos o poder de participar ativamente das decisões de nossos pais.

São Paulo interior, São Paulo capital, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Goiás. Não sou alguém que nasceu e cresceu num mesmo lugar e rodeado das mesmas pessoas. Mudanças sempre fizeram parte da minha vida, e hoje eu sei avaliar todos os pontos bons e ruins disso.

Perdas. Esse é ponto ruim e doído. Deixar amigos, escola, casa, rua, igreja, lugares e rotinas é bastante complicado quando a gente é criança e adolescente. Parece que não vamos encontrar nada parecido ou melhor quando deixamos para trás algo ou alguém que amamos. Sair da rotina que trás segurança é mais assustador ainda quando somos pequeninos. Como vai ser?! Como vai ser?! Quem vou encontrar?! Muitas perguntas me acompanhavam em todas as mudanças. Papai e mamãe mesmo com as mesmas angústias escondidas no peito, respondiam sempre que seria com certeza muito melhor.

Resiliência. Aprendemos muito sobre isso. Era preciso continuar a vida a cada mudança que enfrentávamos por mais dolorida que fosse, e nos tornamos bom nisso. Desapego também foi aprendido, se era possível se desapegar significava também que era possível reconstruir e reconquistar. Aprendi muito porque a dor ensina muito mais do que as alegrias.

Bravura. Mudanças exigem bravura e muita coragem porque sair do lugar as vezes parece impossível e o medo é gigantesco que geralmente nos paralisa. Sim, continuo tendo meus medos e, na medida do possível, evito mudanças bruscas porque sei muito bem como elas são amargas. Contudo hoje me vejo bastante enriquecida e fortalecida por todas as grandes mudanças que precisei enfrentar, e não tive opção, tive mesmo que enfrentar.

Conheci muitos lugares e tantos jeitos de se viver. Conheci muitas verdades e todas elas eram verdades absolutas até mudar simplesmente de estado. Não construí referências que me amarraram a nada nem a ninguém. Não me cerquei de pessoas que me viram nascer e crescer, portanto não tenho que lidar com expectativas de ninguém com relação ao que eu me tornei. Conheci a libertadora sensação de não pertencer a uma tradição, a um bairro ou a uma mesma comunidade que poderia me cobrar isso ou aquilo pelo simples fato de participar da minha vida desde pequena.

Com certeza tudo isso faz parte de quem eu sou hoje, é a nossa história que nos constrói seja ela qual for. Gosto de pensar nisso e olhar para trás com carinho, com olhar consciente de que tudo de bom e de ruim são parte de mim. Tenho esse olhar nostálgico de contemplação para o que passou e sempre faço o exercício de tentar aprender, sempre aprender... Olhar para trás deve ser sempre algo que resulte em você ser melhor hoje e nada mais que isso.



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