São Paulo. Sexta-feira a noite. Frio. Lá vou eu levar minha filha de dez anos para encontrar a galerinha que vai passar o fim de semana fora em acampamento. Chegamos no local, e logo nos deparamos com centenas de famílias, todas embarcando seus filhos.
Check in feito e começa a espera para embarcar mais de duzentas crianças entre oito e doze anos em cinco ônibus. Muito barulho, crianças excitadas correndo e gritando a cada amigo que encontrava, pais conversando e organizando a saída de seus filhos, irmãos mais novos chorando porque não iriam e irmãos mais velhos reclamando da demora para despachar o caçula.
Travesseiros, cobertas e malas para todo o lado. Malas organizadas e malas bagunçadas. Equipe organizadora pra lá e pra cá na organização impecável do evento, todos uniformizados para facilitar a identificação.
Começam a chamar as crianças por cor. Cada ônibus, uma cor e a animação dobra porque enfim vão todos embarcar. Eu ali observava tudo e mantinha os olhos atentos em minha filha que já nem se lembrava que eu estava ali, pois já tinha encontrado amigos e o assunto era a divisão dos quartos.
"Ônibus Azuuul!!!" Gritou um monitor e lá vou eu embarcar a minha menina. "Vai com Deus, se cuida e bom acampamento filha" - Disse eu abraçando e beijando minha filha. Pais na calçada se despedindo dos seus pequenos e uma cena muito interessante começa a acontecer.
"Filho, não some, fica sempre perto de todo mundo." "Filho se agasalha porque lá é frio!" "Mamãe te ama viu?" "Almoça cedo filha, não deixa para comer muito tarde" E das crianças só se ouvia "Tá booooommm!".
Depois de uns dez minutos que minha filha embarcou liguei no seu celular da calçada mesmo: "E aí? Pegou um lugar legal? Conseguiu sentar com seus amigos?" Satisfeita com esse último diálogo com ela e certa de que já estava curtindo, logo desliguei e continuei ali parada esperando o tal ônibus sair. Uma mãe olhou para mim e disse: "Você já falou com sua filha?" Respondi que sim com um sorriso de mãe coruja e ela continuou: "Então eu estou bem porque minha filha entrou e eu não falei mais com ela!" - Disse a mãe orgulhosa de sua atitude e tirando um sarro de leve da minha atitude. Pensei: "Ok". Aquilo não me incomodou, do jeito que estava encostada no muro, eu continuei naquele frio esperando sozinha que o ônibus saísse. Não vi onde estava sentada (ou não) minha filha por conta de vidros escuros, mas sabia que estava ali e ali fiquei.
Me diverti observando as famílias e como cada uma agia na despedida da sua criança. Uns davam infinitos tchaus mesmo com o ônibus parado. Outros colocavam no ombro o filho menorzinho que ficaria, para dar tchau para o irmão. Algumas mães pediam para entrar no ônibus e ver onde estavam seus filhos e outras davam tanto beijo em seu filho que atrasava a fila. Pais carregando as malas e dando dicas para o futebol ou palavras de ordem para os mais sapecas do tipo: "Olha lá em filho, se comporta!"
Depois de um tempo ali observando tudo em silêncio percebi que duas mães tumultuavam a entrada do ônibus. Uma queria tirar foto de sua filha entrando e foto de sua filha com cada amigo que encontrava. A outra falava insistente para o monitor da porta do ônibus "Por favor, insista para essas crianças passarem o repelente tio! Olha a Dengue! Tem que passar o repelente durante o dia e a noite! Pelo amor de Deus temos que lembrar da Dengue!" O monitor tentava dar atenção educadamente e ao mesmo tempo embarcar a garotada. Para a minha surpresa a mãe do repelente era a mesma que havia falado comigo orgulhosa de sua faceta de durona. E ali ela ficou com a outra mãe dando mil e uma recomendações e tentando tirar fotografias. até que o ônibus fechasse a porta.
Pensei comigo novamente: "Ok, certamente o tal desprendimento durou muito pouco" e continuei ali só observando o aquela mamãe que não saia do pé do monitor. Ri dentro de mim pensando que mães são muito engraçadas quando se trata de seus filhotes. Nos sentimos muito poderosas no cuidar e esquecemos que vida de nossos filhos não está sob o nosso total controle. A medida que eles crescem mais impotentes nos sentimos na missão de proteger de qualquer mal. Ali era um aprendizado geral. Tanto para os pequenos que iam, quanto para os grandes que ficavam.
Os ônibus partiram e todos os pais que ficaram na calçada, certamente experimentaram o gostinho amargo de que gostemos ou não, os pequeninos crescem e nos obrigam a enxergar que eles, assim como nós, precisam caminhar com suas próprias pernas e trilhar o seu caminho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário