Não me lembro bem minha idade, mas tenho comigo que era bem pequena quando aconteceu algo do qual eu nunca me esqueci. Estava no mercado com minha mãe em pé ao seu lado enquanto ela passava as compra no caixa. No caixa ao lado, havia uma menininha que deveria ter a mesma idade que eu provavelmente. Sentia que ela me olhava... Quando eu cruzei meu olhar com o dela, ela abriu um sorriso e me deu um singelo tchauzinho na tentativa de se comunicar comigo. Olhei bem séria para ela e mostrei a língua sem medo. A pobrezinha se encolheu na mãe dela e escondeu seu rosto e sorriso.
Já tem pelo menos uns trinta anos que vez por outra eu me pergunto o porque fiz aquilo e o quanto aquilo fala de mim. Não vou nunca ter a chance de encontrar a menininha e pedir que me perdoe! Que ameaça poderia representar aquele sorriso? O que poderia me trazer de ruim retribuir aquele aceno? Será que ainda pequenina já carregava minha impaciência com gente? Quer dizer que a gente está destinado a ser de tal jeito e isso não muda? Já me fiz um tantão de perguntas relacionadas a esse simples fato e acabo me acalmando com a resposta mais provável dizendo a mim mesma "coisa inocente de criança".
Jamais vou saber porque fiz aquilo e talvez nem devesse me preocupar com atos puros de uma criança pequenina que todos nós já fomos. Quase certo que a menininha que acenou para mim, hoje é uma mulher que não lembra dessa nossa relação-relâmpago no supermercado de alguma das tantas cidades em que já morei nessa vida. Bem, assim espero, que ela realmente não se lembre dessa minha feiura.
O que assusta é que de vez em quando me vejo aquela menininha que mostrou a língua. Em absoluto não mostro a língua hoje para quem me chega com um sorriso, definitivamente e felizmente não é isso. Mas o fato virou uma metáfora que talvez fale um pouco de mim e de minha falta de habilidade em travar novos relacionamentos, ou de me mostrar um ser completamente sociável.
Ser social definitivamente não é o meu forte e isso hoje me incomoda menos que antes. Não me exijo mais nada depois de passar por alguns vales na minha vida e me permito ser eu sem me preocupar o que o outro está achando disso. Tenho consciência de que vez por outra eu preciso me esforçar, para o meu próprio bem, mas o silêncio ainda é o meu forte.
Tudo isso me ocorreu hoje por conta de um outro fato que fez aflorar na minha memória a menina que mostra a língua gratuita e impiedosamente. Estava no trânsito, dirigindo meu carro, e parei no farol junto com o carro ao lado. Quando me virei, uma menininha sorrindo acenou para mim e sem pensar em nada imediatamente sorri para ela e acenei em resposta. Aquele carro ao lado partiu e imediatamente voltei para a minha infância.
Fique rindo sozinha e me sentindo redimida daquele meu ato insano, ou não, de criança.
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