terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dois mundos



Com um grupo de adolescentes, o exercício era trabalhar a partir de alguns títulos de poesias de Vinícius de Moraes. Escolhido o título, cada um propunha uma nova poesia acompanhada de uma ilustração também pensada por eles.

Começada a aula, logo percebi que dois grandes mundos se configuraram dentro daquela sala, o mundo feminino e o mundo masculino. Fiquei bastante atenta no rumo que as produções foram tomando a partir das escolhas.

À disposição do grupo, haviam cerca de dez títulos de poesias de Vinícius como A casa, A arca de Noé entre outras poesias e muitas delas já conhecidas por eles. Percebi que naquele grupo havia em potencial homens e mulheres.

É comum brincarmos dizendo que a mulher desde bebê, já carrega características que encontramos em mulheres adultas e assim o homem também. Ali, como mediadora desse exercício de poesia e desenho, constatei que é mesmo verdade isso. Temos dois mundos muito distintos e separados por um grande abismo, que é o mundo da mulher e o mundo do homem.

Cerca de setenta por cento das meninas, optaram pelo título "A partida" e desfiaram palavras tristes de despedida de um amor que partiu. Seus desenhos eram de corações partidos, lágrimas e silhuetas de corpos que caminhavam sem olhar para trás. As palavras eram de dor, de adeus, de abandono e decepção. As cores eram suaves, melancólicas e sem vida. Rimas tristes compunham os poemas que escreviam.

Com treze anos, nenhuma delas ali sabia o que é a dor de um grande sofrimento de amor, mas já carregam dentro delas toda a sensibilidade que transborda em uma alma feminina. Tristemente havia ali um consenso de que o homem sempre parte deixando alguma mulher para trás. Me perguntei de que experiências estão cercadas essas crianças, que realidades vivem e do que se alimentam no conceito de amor. Uma poesia dramática e pesada foi aparecendo por parte das meninas, que com cumplicidade liam os textos umas das outras.

Em contrapartida os meninos escolheram em sua maioria, o título "A bomba atômica" e o único garoto que escolheu o título "A partida", seu texto era um bem humorado poema sobre uma partida de futebol. Se envolveram em falar de disputas, guerras, armas, destruição e sangue. Seus poemas eram fortes, contundentes e seus desenhos com cores vivas e linhas bem definidas.

Riam ao ler o poema de outro amigo que conseguia ser mais sanguinário que o seu próprio. Havia ali um prazer na tecnologia, nas disputas e no poder. Um universo forte e masculino estava ali em potencial. Acabaram de deixar o mundo infantil, e nesse caminho de amadurecimento, era possível perceber a importância da força e a dificuldade de dar vazão aos sentimentos.

Observei aquele incrível pequeno fenômeno que aconteceu no grupo. Sem fazer grandes leituras e interpretações, ali tinha uma pequena mostra de sociedade e toda a complexidade que existe quando se encontram esses dois universos que envolvem o ser humano.

Na semana seguinte, todos os poemas compunham o mural da sala e todos liam atentamente o que foi produzido. Meninos e meninas visitavam os dois universos curiosos e com desejo de compreender cada palavra e sentimento ali colocados. Eles não sabiam, mas ali acontecia uma prévia do que vão enfrentar no desafio da vida de compreender o universo do sexo oposto.

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