"Traduzindo a observação de Freud para a terminologia contemporânea, sob aspecto fisiológico a ansiedade constituiria a reação afetiva correspondente à ativação do sub-sistema simpático (sistema nervoso autônomo), responsável pela configuração dos órgãos internos ( coração, pulmões, glândulas supra-renais, baço, pâncreas...), de modo a preparar o organismo para a ação...."
As teorias da ansiedade e das pulsões em Freud
Este é um pequeno trecho de um artigo cujo o ilustre autor cruzou minha vida numa triste fatalidade. Mestre em filosofia, doutor em linguística, autor de diversos livros, o professor da PUC atravessava a rua numa tarde chuvosa quando nos trombamos. Ele a pé e eu no meu carro.
Era um cruzamento sem farol. Atenta para o tráfego vindo da direita entrei no cruzamento a esquerda sem ver que o professor terminava de atravessar a rua do lado esquerdo bem no meu ponto cego. Ao fazer a curva me surpreendo com ele. Tarde demais, quando parei o carro já havia batido em seu corpo que rapidamente caiu no chão depois de um estrondo que me estremeceu inteira.
Sem pensar em nada larguei o carro no meio da rua e saí correndo. Um único pensamento ficava em minha cabeça: "Meu Deus... Atropelei um homem". Me joguei no chão para socorre-lo e tive que enfrentar a realidade de ver um senhor já de idade todo ensanguentado.
Que sensação horrível sentir o peso de uma vida em suas mãos. Angustiada peguei meu celular para chamar uma ambulância e logo senti a minha volta diversas pessoas. Umas com prontidão para ajudar e outras com olhar curioso que não ajudavam em nada.
Descobri que se tratava de um ilustre professor, seus colegas logo chegaram para ajudar pois estávamos na esquina da universidade. Além de professor, descobri também que era um homem extremamente rígido, responsável e bastante teimoso.
"Eu estou bem" - dizia ele sem saber que de seu rosto e cabeça escorria muito sangue. "Preciso voltar, ainda tenho muitas aulas para dar hoje" - insistia o professor. E eu percebi que tinha ali vários problemas: o acidente, as pessoas, o falatório e a teimosia do meu querido professor em dizer que não precisava de socorro.
Tentei com calma explicar que apesar de estar se sentindo bem, estava muito ferido e precisava aceitar ser ajudado. Lágrimas corriam pelo meu rosto, tamanha tristeza que me dava de ver meu companheiro de profissão naquele estado. Eu sabia bem o que ele sentia... Fechamento de notas, avaliações e seminários certamente ocupavam sua mente naquela hora. Fim de ano é sempre cruel para os professores e eu ainda fiz o favor de acrescentar à sua vida mais problemas para resolver.
Depois de muita discussão, eis que a presença de sua diretora ao local foi decisiva para conseguirmos convence-lo e leva-lo ao ambulatório da universidade. E lá fui eu junto sentindo um peso enorme nos meus ombros e sem acreditar que a vida sempre dá um jeitinho de me reservar surpresas. Me senti triste e cansada.
Dentro da PUC, começam os primeiros cuidados de limpeza, curativos e demais preparativos para remover o professor até o hospital. Ainda foi necessário muito tempo de conversa para que ele aceitasse ser levado. Amigos nessas horas ajudam a conversar, explicar e tranquilizar. Como é bom poder contar com essas pessoas que apesar de todo o afeto sabem dar uma bronca quando precisamos. O mais difícil foi conquistado, o professor foi convencido por todos de que precisava ser encaminhado para um hospital próximo.
Durante todo o tempo eu estava ali. Sentada numa cadeira ouvindo e observando tudo. Me sentia extremamente triste, assustada e mantendo a calma a todo custo. Na minha cabeça passavam mil coisas e me aborreci de pensar que a vida é tão cheia de tempestades que aparecem sem ao menos mandar uma nuvenzinha para sinalizar. Puxa vida! Pensava eu.... Não é pedir de mais ter um pouco de sossego? Não quero nada grandioso nessa vida por que acredito verdadeiramente que a felicidade não está no extraordinário, mas mesmo minha busca por coisas simples, leves e doces tem sido uma grande batalha.
Ali naquela cadeira desconfortável de uma enfermaria, estava entregue a um cansaço de alma e sonhando acordada com um tempo de trégua. Alguma alma triste do lado de fora da sala onde eu estava, tocava uma gaita doída que completava aquele cenário tão desesperançoso. Olhos curiosos tentavam saber o que agitava aquela enfermaria numa tarde escura e chuvosa...
Depois de cumprir todas as burocracias institucionais que pareciam ser mais importante do que um ser humano em estado de emergência, saímos dali rumo a um hospital da região. Ele, na cadeira de rodas todo cheio de curativos, a enfermeira da universidade, bombeiros e seguranças compunham uma brava equipe de resgate e logo atrás eu que apenas ia junto e já nem sabia mais o que pensar.
No hospital ele logo foi recebido como caso de emergência e sumiu no meio daquela infinidade de corredores brancos cheios de portas. Do lado de fora estava eu com o peito apertado pois já não podia fazer mais nada a não ser pedir a Deus que guardasse a vida daquele homem.
De olhos baixos enfrentei sua esposa, me apresentei e conversei resumidamente sobre o ocorrido. Para aumentar a minha angústia ela me recebeu com um silêncio seco que não transmitia nem raiva e nem tristeza. Até agora não sei o que ela pensou ou sentiu sobre o que aconteceu com seu esposo.
O dia foi longo pois depois de cuidar do professor fui cuidar de mim me assegurando de cumprir todas as formalidades legais. Na delegacia, fui esclarecida de que apesar da minha intenção correta de me apresentar, eu precisaria aguardar pois a vitima era quem tinha que dar entrada na papelada ou um policial que fosse ao local onde estivesse a vitima. Calmamente o policial me explicou que não se tratava de um acidente de trânsito, mas que atropelamento é considerado crime e por isso é tratado de uma outra forma. "Puxa! Crime?!" - pensava eu... E essa palavra maldita ficou ecoando no meu peito.
Noite a dentro na delegacia, consegui cumprir o que cabia a mim como cidadã mas queria mesmo ter o poder de reverter toda aquela situação. Fiz o que devia junto a polícia, mas não pude fazer o que queria a favor do professor.
Mais uma vez e de forma cruel a vida me mostrou como é pequeno e limitado nosso poder de ação, de controle.... Era eu ali constatando de novo que a vida está tão além do que podemos imaginar que me senti minúscula. Tive vontade de levantar o dedo para o céu e chamar Deus pra briga. Quanto mais a gente procura ser correto parece que mais atropelos estão reservados! Puxa vida! Que raio de ponto cego foi esse que me traiu a ponto de eu quase tirar a vida de um homem?! Ei universo espera um pouco! Deus, calma lá! Será possível que ninguém vê onde anda o mal para agir lá?! Não pode ser! Onde foi que eu errei? Caramba! E tive vontade de vomitar tudo isso naquela sensação que me persegue de vez em quando em pensar que está tudo errado nesse mundo. Pensei que talvez devesse aprender alguma coisa com isso, mas pensei depois que não tinha nervos pra tirar boa lição nenhuma. Me atrevi a pensar que não queria mais aprender nada na dor tamanho cansaço que ela me traz.
Fui acompanhando de longe as notícias do professor. UTI, exames, observação... Até que ele voltou para o quarto e enfim de lá saiu depois de uns dias minimamente reestabelecido. A sensação que tive era de que saindo ele do hospital, entraria eu em seu lugar e por lá ficaria uns dias para tentar superar não só o ocorrido, mas toda a turbulência de sentimentos que ele me trouxe.
Deus não comprou a minha proposta de briga e se negou a discutir comigo no termos que eu queria, mas Ele me mandou um recado muito sutil de que a vida deve continuar e que eu devo me acalmar. O recado divino veio no silêncio. De dentro do meu carro, no mesmo cruzamento, vi o professor caminhando na calçada. Com hematomas no rosto, braço enfaixado e caminhando bem devagar, ele estava continuando sua vida e eu sem saber se ria ou chorava recebia o recado de que assim como ele devo também seguir.
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