segunda-feira, 23 de junho de 2014

E daí?!?!

Barcelona foi o destino que escolhi para uns dias de descanso. Não queria saber de horários, trânsito, celular, despertador ou computador. O objetivo era pensar em nada e fazer o que desse na telha precisando somente de uma pequena bolsa atravessada no corpo, um tênis no pé, o mapa do metro e um bilhete do mesmo na mão.

O único horário com o qual me comprometi era o do café da manhã do hotel. Quem é que não gosta de um bom café da manhã de hotel?! O esquema era acordar num horário tranquilo, sem muito sofrimento para sair da cama e aproveitar o dia. Acordava, mas ainda com aquela preguiça de quem está sem nenhum compromisso. Queria tomar café para acordar e somente depois pensar numa roupa para sair, maquiagem, roteiros, o que levar e etc.

Juntando a vontade de aproveitar o café da manhã e a deliciosa preguiça daqueles dias, tive uma idéia maravilhosa: Descer para o café da manhã de pijama, como se eu estivesse em casa. O pijama escolhido tinha cara de pijama, mas em nada apelava para algo desapropriado para se usar na frente de estranhos. Se tratava de uma calça listrada de azul claro e branco e uma camisetinha pink com um enorme cupcake no peito. Olhei no espelho por um tempo e pensei: Será?! Logo em seguida: Porque não?! Estava mesmo era querendo não me preocupar com nada. Por conta do friozinho, ainda coloquei por cima um discreto casaquinho branco e enfiei meus pés quentinhos com meias coloridas no meu crocs.

Despreocupada cheguei no salão onde acontecia o café da manhã. Tranquilamente fui pegar um suquinho de laranja e fazer um pratinho com pãezinhos e afins. Estava um clima maravilhoso, até que senti um olhar quente e raivoso bem atrás de mim. "Nossa!" - Pensei. E não é que era um senhor que me olhava inconformado?! Demorei para entender, mas depois de um tempo percebi que seu olhar insistente e reprovador tinha a ver com o inocente fato de que eu estava de pijama.

Conhece espanhol? Eu conheço bem, sou filha e neta de espanhol e sei que é alguém camarada até que você o cutuque. Conhece o espanhol nativo? Em sua terrinha? Minha nossa! Todo cuidado é pouco para não despertar a fera. Eita ombres carrancudos! Parecem bravos em seu jeito forte de falar, são extremamente objetivos, apressados e um tanto mal humorados. Na verdade, todas as vezes que estive em lugares da Espanha, não soube dizer se o brasileiro que é muito feliz e animado ou o espanhol que é muito zangadão. Pode depender do ponto de vista, mas o choque é inevitável!

Sim. Eu estava de pijama. Sim. O espanhol achou um absurdo e se remexia em sua cadeira toda vez que eu passava para pegar um pãozinho. Eu? Não reagi. Não fiz absolutamente nada de diferente do que faria se eu estivesse com outra roupa, e tomei meu café normalmente na certeza de que não estava fazendo absolutamente nada de ofensivo a qualquer espanhol que cruzasse meu caminho.

Foram vários olhares reprovadores de homens e mulheres que se incomodaram com tamanha ousadia da minha deliciosa preguiça. "Pessoal, deixa disso! Deviam ter vindo de pijama também e veriam como o café de vocês ficaria infinitamente mais gostoso!" - Pensava eu. Estava em dias tão especiais que um profundo sentimento de "Não estou nem ligando" tomava conta do meu ser. Podia parar o salão enquanto estivesse ali, que eu estaria igualmente desfrutando o prazer do meu abençoado descanso.

Certamente dentre tantas coisas maravilhosas que tive o prazer de ver nas minhas caminhadas solitárias por Barcelona, o café da manhã se tornou um evento divertidíssimo porque eu, insistentemente, desci para o café todos os dias de pijama.

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