quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Crise




Mais de quarenta dias no silêncio. Cabeça e alma travou tudo. Escrever que sempre foi como simplesmente deixar fluir pelos dedos tudo que me vem com a vida, se tornou um desafio. Caneta na mão e nada. Computador? Nada. Tablet? Nada. Celular? Nada.
As palavras ou não saíam ou não se conectavam umas com as outras. Uma frase, duas, três e na quarta já não tinha nada a ver com a primeira. Agonia.

Pensei nos grandes escritores que vivem da deliciosa arte de tecer lindos tecidos com palavras. Se sua vida é escrever, como fazem diante de um trava dessas? Ou não travam? Desejei ser amiga de algum deles simplesmente para ouvir suas histórias sobre escrever. Não, não sou escritora, mas sim uma apaixonada pela aventura de brincar e explodir com as palavras. Escrever se tornou uma forma de ser livre, uma forma de falar no meu silêncio, uma forma de compartilhar e traduzir pra fora uma parte da minha ebulição interna, eterna e infinita. A vida parece que se torna uma grande paleta de palavras quando a gente escreve, assim como as cores para quem pinta.

Uma quarentena forçada. Minha paleta transbordando de palavras e nada de conseguir organiza-las em escrita. Será meu fim? Será que minha vida de pretensa escritora já acabou? ...Me coloquei a pensar no que escreveria na lápide do meu eu-escritor. "Aqui jaz uma jovem escritora, que sucumbiu na primeira crise com as palavras." Ou "Aqui jaz alguém que um dia pensou que conseguia escrever. Ou "Não conseguia mais escrever e morreu tentando, descanse em paz agora." Que tristeza!

Não aceitei esse funeral, nenhumas das reflexões que pensei para a minha lápide me deixaram mais conformada e decidi enfrentar a inquietação desse silêncio forçado. O silêncio é meu parceiro fiel e com ele não tenho problemas, porque teria agora? O silêncio sempre foi meu aliado e nele sempre me encontrei, porque entraríamos em desacordo? Será o silêncio que me travou? Mas... Foi ele que sempre me fez escrever!

E pensando no silêncio que esbocei as primeiras palavras desse texto. Não podia quebrar minha "mais-que-quarentena" falando de mais nada a não ser dela própria. Cheguei até aqui como sempre foi: me deliciando com as palavras.

Espero assim voltar a me entender com elas e elas comigo... Porque se a vida não for traduzida por alguma forma de arte, de fato para mim se perde muito. Gosto quando Ferreira Gullar diz que arte existe porque a vida não basta.

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