"Minha querida, desejo toda a felicidade em seu aniversário. Sinto muito não poder ajuda-la a apagar as velas este ano. Mas o coração é um pingente que eu fiz para a sua pulseira. Suas roupas estão ficando pequenas para você? Peça ao papai e ao George que falem com suas tias para fazerem roupas novas para a minha garotona. Eu penso em você e no seu irmão o tempo todo. Estou bem. Está sendo uma boa menina? Vai escrever pra mim? Espero que você e George continuem estudando. Estou bem. Tenho muitas saudades, minha querida Hanichka. Mando beijos agora.
Amor, mamãe.
Maio,194 - Ravensbruck"
Meu coração já estava dilacerado a essa altura da minha leitura do livro A mala de Hana uma história real. Com uma literatura dedicada ao público infanto-juvenil, o livro se propõe a contar a história de Hana, uma menina de treze anos que morreu na câmara de gás em Auschwitz.
Fui transportada para a década de trinta e quarenta e fiquei sofrendo naqueles dias tristes, angustiantes e opressores.
Hana viu a guerra chegando, até bater à porta de sua casa, levando sua mãe e depois seu pai de maneira impiedosa, fria e completamente injusta. Esta, é a carta que sua mãe conseguiu mandar para Hana por ocasião do seu aniversário, depois de ter sido tirada de dentro da sua casa em Nove Mesto região da República Tcheca e levada a Ravensbruck, um campo de concentração para mulheres na Alemanha.
Uma carta da Gestapo ordenou que sua mãe, munida de uma pequena mala, deixasse sua casa e sua família e se apresentasse em um quartel general de uma cidade próxima. Sem ter a mínima noção do que aconteceria e para onde aquele sombrio trem a levaria, despediu de seus filhos colocando-os para dormir pela última vez.
Sofrendo a dor mais cruel da saudade, mamãe (como é chamada no livro), conseguiu fazer chegar nas mãos de Hana essa carta de feliz aniversário juntamente com pequenas esculturas feitas por ela dentro do campo de concentração, com massa de pão.
Hana viu também seu pai partir, ela tinha um irmão mais velho. Com quem ficaria as crianças?! Nunca ninguém se preocupou com isso. De fato, a morte daquelas crianças não foi o mais triste momento a que elas foram submetidas.
Famílias foram separadas e nem sequer a chance de morrerem juntos foi dada àquelas pessoas que somaram seis milhões de mortos no Holocausto, sendo um milhão e meio de crianças. Hana e George foram abençoados de seguirem para o mesmo campo de concentração chamado Theresienstadt, porém ficaram em alojamentos separados podendo se encontrar poucas horas na semana. Ali ficaram por aproximadamente dois anos, vivendo em condições sub humanas numa longa fila para morrer. Hana pegou o trem da morte até Auschwitz depois de já ter sofrido toda a dor da saudade e da luta pela vida. Seu irmão é um sobrevivente que carrega até hoje profundas marcas por ter visto toda a sua família partir sem se quer entender, enquanto criança, o que estava acontecendo.
Tudo muito sofrido. E a gente vai ter que carregar essa marca vergonhosa na nossa história. A leitura de A mala de Hana me deixou rendida às minhas perguntas e tem me feito ler sobre o Holocausto. Quanto mais leio, menos entendo. Que angústia. De fato cheguei a conclusão de que existem dores maiores que as minhas e lutas muito mais pesadas.
Nunca ninguém vai conseguir entender a alma de Hitler, tão pouco seu ódio contra os judeus por mais que se explique, por mais que se estude.
O que pode fazer uma alma perturbada?
Para tantos que partiram... Inda que tão tarde, fica aqui o meu sentimento, as minhas lágrimas e o meu lamento.
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