Me lembro que durante muitos
anos da minha vida, a minha escolha e preferência era sempre por números pares.
Se houvesse a necessidade de numerar o que quer que fosse, tentava sempre
privilegiar o número par. Vou assar quantos pães de
queijo? Número par. A televisão e o som vão ficar em qual volume? Número par.
Imprime quantas cópias? Número par. Pede quantas esfihas? Número par. Compra
quantos pães? Número par. Manias são engraçadas, esquisitas e rapidamente são
incorporadas na nossa rotina, até que a gente não perceba mais.
As razões
dessa ecolha por números pares são muito óbvias. O número par resulta sempre
numa divisão exata, possibilita agrupamentos iguais e soa sempre mais
confortável. Relembrando aquele conceito que aprendemos na escola sobre números
pares e ímpares encontrei a velha definição: Número par é todo número inteiro que ao ser
dividido pelo númer dois resulta em um número inteiro. Ou seja, par é todo
número que pode ser escrito na forma x=2y, com x e y pertencentes ao conjunto
dos números inteiros. Número ímpar é todo número inteiro que ao ser
dividido pelo número dois resulta em um número racional não inteiro. Ou seja,
ímpar é todo número que pode ser escrito na forma x=2y+1 ou x=2y-1, com x e y
pertencentes ao conjunto dos números inteiros.
O fato é que
hoje, e já tem algum tempo, depois de tantos anos escolhendo números pares,
voltei atrás nessa mania e tenho dito sempre: ímpar! Já não faz mais sentido o
número par... Parece
bobagem, mas insisto em atribuir significado às coisas pequenas do dia-dia.
Gosto desse exercício simbólico, pois parece que tudo ganha um sentido único,
exclusivo e a vida não parece mais me escapar entre os dedos sem que eu
perceba. É de fato um exercício gostoso e tantas vezes divertido. Adoro sair
atribuindo significados às coisas e são amarrações mentais bem interessantes
que acontecem.
Pensando
então nos números pares, o que começou a me incomodar é que eles são muito
resolvidos, não existe a vírgula e não existe a possibilidade de ser menos
exato. Essa representação que eles carregam na verdade me trás a sensação de
uma escolha que reflete também esse pensamento de ser exato, inteiro, completo,
fechado e pronto. É claro... estou colocando sobre o número uma outra carga
simbólica que ultrapassa o fato de ser apenas número.
Brincando um pouco com o significado das coisas, me coloco a pensar que o
sentido dessa viagem metafórica é que eu mesma sempre fui muito e ainda tenho
uma forte tendência a ser exata como um número par encarando a vida sem
vírgulas e com a pretensão de estar no controle de tudo. Ter o desejo de estar
no controle da direção da vida é muito natural, a gente realmente acredita que
está no controle de tudo até que a vida nos mostre, de maneira impiedosa, que
não temos controle de absolutamente nada.
Em sua
infinita grandiosidade então, a vida foi me mostrando que a gente é bem mais
ímpar do que par. Ah! Não foi muito confortável chegar a essa conclusão pra
quem sempre foi muito par. Quando percebi tantas vírgulas e possibilidades
que saem totalmente da exatidão do número inteiro, de fato tive que repensar os
números e essa escolha.
Tenho
escolhido sempre números ímpares porque eles me fazem lembrar que
eu não sou par, que eu não tenho o poder de ser par e que a vida nao cabe na
minha exatidão como os números inteiros.
Quando estou
ouvindo música no carro é regra que vou pensar nessas questões, pois deixo o
volume no nove, ou no onze, ou no treze... E não é que me parece que é sempre a
melhor opção?! Talvez eu já esteja bem sugestionada por ficar nesse devaneio
sobre os números, mas de fato o volume no número par me parece ou alto demais
ou baixo demais, então procuro esse meio termo.
Pensar em
números pares e ímpares tem me feito pensar em muita coisa e esses dias mesmo
fiquei feliz de lembrar que apesar de saber que ainda sou muito par, meu número
preferido sempre foi o sete!

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